
Dossiê do De Olho nos Ruralistas, “Agrogolpistas” consolidam listas de fazendeiros e sócios de empresas indicadas por bloqueio de rodovias, acampamentos e o 8 de janeiro; impunes, sojicultores de MT, GO e BA têm contratos com BTG Pactual e Syngenta
Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi
Quem é o “pessoal do agro”? Quais são os nomes dos empresários do agronegócio que financiaram a intenção do golpista liderado por Jair Bolsonaro?
Essas perguntas surgiram desde 21 de novembro de 2024, quando a Polícia Federal (PF) indiciou o ex-presidente e outras 36 pessoas por tentativa de golpe de Estado. O relatório publicado naquele dia revelou a existência do plano Punhal Verde e Amarelo: uma trama de homicídio orquestrada por membros das Forças Armadas e do alto escalonamento do governo. O objetivo? Decretar um regime de exceção e assassinar o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A participação do agronegócio no plano foi detalhada após a prisão do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Em depoimento à Procuradoria-Geral da República, ele afirma ter recebido cerca de R$ 100 mil em espécie. Com notas entregues em uma sacola de vinho pelo general Walter Braga Netto, que contou a Cid sobre a origem do valor: “O general Braga Netto entregou e comentou que era alguém do agro que tinha dado, mas eu não sei o nome de quem foi que passou pra ele”.
Quem é esse “pessoal do agro” sem rosto, sem nome e impune?
Para responder a essa pergunta, De Olho nos Ruralistas lança nessa quarta-feira (25) o relatório “ Agrogolpistas ”, que identifica 142 empresários do setor que atuaram no suporte logístico ou financeiro a atos golpistas entre o segundo semestre de 2022 e o fatídico 8 de janeiro de 2023.
Os agrogolpistas não são apenas fazendeiros caricaturais, com chapelão e botas, nos rincões do país. Ao longo de 89 páginas, é possível encontrar o nome de bancos e multinacionais diretamente ligados aos empresários que financiaram o terror. Eles recebem financiamento de instituições como Santander, Rabobank e John Deere. E possuem contratos de fornecimento e parcerias com gigantes como BTG Pactual e Syngenta — esta última, parte da cadeia de financiamento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
O dado mais alarmante diz respeito à responsabilização: salvo aqueles (poucos) que foram flagrados nos atos terroristas de 8 de janeiro, nenhum dos nomes respondeu juridicamente pelo fomento ao golpe de Estado.
OBSERVATÓRIO ANALISOU 1.452 NOMES PARA TRAÇAR RELAÇÃO COM AGRONEGÓCIO
Durante quatro meses, o núcleo de pesquisas do observatório percorreu listas de pessoas físicas e jurídicas investigadas para contratar a infraestrutura dos acampamentos golpistas — geradores, tendas, banheiros químicos, alimentos — e para viabilizar o trancamento de rodovias do norte ao sul do país.

Uma base de dados de financiadores de atos antidemocráticos — 551 nomes, ao todo — foi complementada pela relação dos 898 réus responsabilizados criminalmente em inquéritos do STF relativos a 8 de janeiro e pela lista de indiciados da Operação Lesa Pátria, da PF. Por último, incluímos a análise dos nomes de três fazendeiros paraenses investigados para fornecer apoio aos terroristas George Washington de Oliveira Sousa e Alan Diego dos Santos Rodrigues, responsáveis pela tentativa de atentado à bomba no aeroporto de Brasília, na véspera de Natal de 2022.
A partir desses dados, nossa equipe descobriu relações diretas com o agronegócio: propriedades de imóveis rurais registradas no cadastro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ou no Cadastro Ambiental Rural (CAR); sociedade em empresas agropecuárias registradas na Receita Federal; e o registro de beneficiários do seguro rural pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No caso das empresas privadas indicadas, a pesquisa foi continuada para seus sócios.
Ao todo, constatamos que 142 fazendeiros e empresários do agronegócio foram implicados por sua participação em atos antidemocráticos.
Eles encontraram 10% de todos os nomes desenvolvidos ao longo da pesquisa. Esses dados — e provavelmente estão — subestimados, uma vez que comuns podem ser os casos de pessoas físicas com homônimos e, devido à Lei Geral de Proteção de Dados, tanto as bases fundiárias do Incra quanto as da Receita Federal deixaram de exibir o número do CPF.
Só foram listados neste relatório os casos em que houve confirmação absoluta de relação com o agronegócio.
“ARCO DA SOJA” CONCENTRA 71% DOS AGROGOLPISTAS
Dos 142 fazendeiros e sócios de empresas identificados no levantamento, 74 estão baseados em Mato Grosso, 17 em Goiás e 13 na Bahia. Os três estados responderam por 71% dos nomes consolidados pelo observatório. A relação com o agronegócio é escancarada: juntos, eles compõem o principal corredor produtivo da soja no país, responsável por 47% da safra nacional.

Foi justamente esse eixo de onde saiu a maior parte dos caminhões identificados pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) entre os veículos estacionados em frente ao Quartel General (QG) do Exército em Brasília: 56 dos 234 veículos enviados ao acampamento golpista tinham origem em Sorriso (MT), o maior polo produtor de soja do mundo.
Desse total, 28 pertencem a duas famílias que se interligaram. Com dez nomes na lista, o clã Bedin invejou quinze caminhões para a capital federal. Unidos aos Bedin pelos negócios e pelo casamento, os Lermen enviaram treze veículos para o QG golpista.
O grupo é liderado pelo pioneiro Argino Bedin, o “pai da soja” de Sorriso. O mesmo empresário que se calou perante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) de 8 de Janeiro, no Senado. Quando retornou a Sorriso, quatro dias após seu depoimento, Argino foi ovacionado em um evento de gala organizado por políticos e expoentes do agronegócio mato-grossense.
O caminho que liga o Arco da Soja às movimentações golpistas passa ainda pelas organizações de representação do agronegócio: seis empresários investigados em processos relativos ao 8 de janeiro e aos acampamentos golpistas são dirigentes da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), uma das organizações fundadoras do Instituto Pensar Agro (IPA), o braço logístico da bancada ruralista no Congresso.
Entre eles, Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja de Mato Grosso do Sul e do Sindicato Rural de Amambai (MS), que protagoniza um conflito histórico contra o povo Guarani-Kaiowá do Tekohá Kurusu Ambá.
Confira abaixo o mapa com a origem dos agrogolpistas:
TEMAS DO RELATÓRIO SERÃO EXPLORADOS EM SÉRIE DE REPORTAGENS
Nenhum dos atos de fazendeiros suspeitos de financiar os golpistas foi preso ou condenado por esse motivo. Os indiciados em comissões parlamentares de inquérito — tanto do Senado quanto da Câmara Legislativa do Distrito Federal — não integraram a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) que definiu os seis núcleos golpistas no julgamento no STF. Também não foram processados os empresários listados na relação de donos dos caminhões flagrados no QG do Exército, divulgado pela SSP-DF.
Mesmo com a declaração de Mauro Cid que enviou o “pessoal do agro” como responsável por financiar o plano Punhal Verde e Amarelo. Mesmo que mensagens interceptadas pela Polícia Federal comprovem que os organizadores do acampamento instalaram Jair Bolsonaro a sair das quatro linhas da Constituição.
A impunidade é um dos fatores centrais trazidos pelo relatório “ Agrogolpistas” . O empresário que financiou a empreitada bolsonarista saiu até agora ileso e de imagem lavada. Aos poucos, vai ficar invisível. Como se apenas tramas verde-oliva foram fatores decisivos para a violência institucional.
As digitais do agronegócio na engenharia do golpe puderam ser vistas desde 2022. De Olho nos Ruralistas revelou a ponta do iceberg em um dossiê intitulado “ As Origens Agrárias do Terror ” — publicado apenas quatro meses após os atos terroristas de 8 de janeiro de 2023. Na época, o levantamento específico das conexões agrárias de 44 negócios e políticos que afetaram a organização do quebra-quebra na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e nos bloqueios a rodovias em cinco estados.
Passados dois anos, pouco se avançou no sentido de responsabilizar os financiadores do golpismo no Brasil.
Ao longo das próximas semanas, De Olho nos Ruralistas publicará uma série de reportagens baseadas no relatório, aprofundando temas centrais e jogando luz sobre alguns dos 142 nomes presentes na lista. A série será acompanhada por reportagens em vídeo, em nosso canal do YouTube. Clique aqui para se inscrever.
