
Tarifaço repete a lógica imperial da Guerra Fria: EUA querem enfraquecer os Brics e o nosso poder contra as big techs.
Oficialmente? Uma diplomata de terno bem passado, que atingiu o topo de sua carreira durante a Ditadura Militar. Frequentador assíduo das altas cúpulas da política latina de seu tempo. Extraoficialmente? O arquiteto de uma rede de espionagem internacional – a Ciex – é parcialmente responsável por transformar “desaparecidos políticos” em uma categoria demográfica na América Latina.
Não bastasse a vida dupla, havia ainda uma terceira dimensão, pois existem fortes declarações de que o embaixador era um agente da CIA. Inclusive, é isso que afirma categoricamente o ex-espião Phillip Agee, em seu livro de memórias – diga-se de passagem, uma leitura pouco recomendada para quem se dirige aos EUA.
Segundo o ex-agente da CIA, Pio Corrêa não foi apenas “patrocinado” pela agência de inteligência dos EUA, como segundo seus interesses para espalhar a “democracia americana” (leia-se: golpes militares) pelo Cone Sul.
E antes que você pense que se trata de mais uma teoria da conspiração, saiba que o possível “patrocínio” de Pio Corrêa seria apenas uma entre interferências norte-americanas na política brasileira da época.
Importante lembrar, por exemplo, que antes mesmo do golpe de 64, os EUA já financiavam políticos, institutos e campanhas no Brasil, tudo em nome da “luta anticomunista” – que, convenhamos, era mais proteger sobre seus interesses econômicos do que salvar o mundo do fantasma vermelho.
Como não bastasse, os Estados Unidos também atuaram ativamente para sabotar o país, empobrecendo-o. Nos anos pré-golpe, os EUA não apenas cortaram investimentos diretos no Brasil como obtiveram sua influência para congelar empréstimos no FMI e fechar as portas do Banco Mundial para o governo de João Goulart.
E para a surpresa de absolutamente ninguém, mal os militares assumiram o poder em 1964, em questão de poucas semanas uma chuva de dólares começou a irrigar a economia brasileira. Num passe de mágica, linhas de crédito internacionais se abriram para o país.

Sabe aquele famoso “milagre econômico” que o seu tio hidrofóbico adora citar no almoço de domingo para celebrar a Ditadura Militar? Nada mais que uma maquiagem contábil com esses bilhões de dólares que os EUA fizeram chover no Brasil.
A essa altura, você provavelmente está pensando: “mas isso não é novidade, os EUA são conhecidos por ‘exportarem democracia’ para o mundo fora”. E sim, você tem razão. Mas o caso brasileiro tem um tempero especial: nossa relevância geopolítica.
Ao contrário do que nosso “narcisismo às avessas” – como diria Nelson Rodrigues – nos faz acreditar, o Brasil é uma potência mundial, especialmente no Cone Sul. Importante lembrar que não somos apenas a maior economia da América Latina, como detemos um poder de influência direta sobre as nações vizinhas, para não falarmos de imensas reservas estratégicas de petróleo e minerais.
Não à toa, os EUA temiam que o Brasil virasse uma “China das Américas” ainda nos anos 1960. E isso não sou eu quem está dizendo: esse temor está registrado numa comunicação secreta do embaixador americano à época do golpe. Junto com o temor de que se o Brasil caísse nas mãos do comunismo, os outros países latino-americanos seguiriam a tendência e se tornariam as próximas peças do dominó, transformando-se em novas Cubas.
E por isso dominá-lo, melhor, nos dominar, era praticamente o item número um na lista de ações imperialistas dos EUA na América Latina.
Era e ainda é. Pois trago essa discussão histórica para dizer algo que deveria ser óbvio: as tarifas impostas por Trump ao Brasil seguem a mesma lógica imperial da Guerra Fria, apenas com uma roupagem do século 21.
