Bolsonaro é o boi de piranha de Trump

Bolsonaro é o boi de piranha de Trump

Tarifaço repete a lógica imperial da Guerra Fria: EUA querem enfraquecer os Brics e o nosso poder contra as big techs.

The Intercept Brasil, por Orlando Calheiros – Manuel Pio Corrêa é um daqueles personagens que você nunca ouviu falar nas aulas de História, mas que certamente estaria no topo da lista dos “brasileiros controversos” que merecem um documentário investigativo. 

Oficialmente? Uma diplomata de terno bem passado, que atingiu o topo de sua carreira durante a Ditadura Militar. Frequentador assíduo das altas cúpulas da política latina de seu tempo. Extraoficialmente? O arquiteto de uma rede de espionagem internacional – a Ciex – é parcialmente responsável por transformar “desaparecidos políticos” em uma categoria demográfica na América Latina.

Não bastasse a vida dupla, havia ainda uma terceira dimensão, pois existem fortes declarações de que o embaixador era um agente da CIA. Inclusive, é isso que afirma categoricamente o ex-espião Phillip Agee, em seu livro de memórias – diga-se de passagem, uma leitura pouco recomendada para quem se dirige aos EUA. 

Segundo o ex-agente da CIA, Pio Corrêa não foi apenas “patrocinado” pela agência de inteligência dos EUA, como segundo seus interesses para espalhar a “democracia americana” (leia-se: golpes militares) pelo Cone Sul. 

E antes que você pense que se trata de mais uma teoria da conspiração, saiba que o possível “patrocínio” de Pio Corrêa seria apenas uma entre interferências norte-americanas na política brasileira da época. 

Importante lembrar, por exemplo, que antes mesmo do golpe de 64, os EUA já financiavam políticos, institutos e campanhas no Brasil, tudo em nome da “luta anticomunista” – que, convenhamos, era mais proteger sobre seus interesses econômicos do que salvar o mundo do fantasma vermelho.

Como não bastasse, os Estados Unidos também atuaram ativamente para sabotar o país, empobrecendo-o. Nos anos pré-golpe, os EUA não apenas cortaram investimentos diretos no Brasil como obtiveram sua influência para congelar empréstimos no FMI e fechar as portas do Banco Mundial para o governo de João Goulart. 

E para a surpresa de absolutamente ninguém, mal os militares assumiram o poder em 1964, em questão de poucas semanas uma chuva de dólares começou a irrigar a economia brasileira. Num passe de mágica, linhas de crédito internacionais se abriram para o país.  

Marcha pela Família em 1964.

Sabe aquele famoso “milagre econômico” que o seu tio hidrofóbico adora citar no almoço de domingo para celebrar a Ditadura Militar? Nada mais que uma maquiagem contábil com esses bilhões de dólares que os EUA fizeram chover no Brasil. 

A essa altura, você provavelmente está pensando: “mas isso não é novidade, os EUA são conhecidos por ‘exportarem democracia’ para o mundo fora”. E sim, você tem razão. Mas o caso brasileiro tem um tempero especial: nossa relevância geopolítica. 

Ao contrário do que nosso “narcisismo às avessas” – como diria Nelson Rodrigues – nos faz acreditar, o Brasil é uma potência mundial, especialmente no Cone Sul. Importante lembrar que não somos apenas a maior economia da América Latina, como detemos um poder de influência direta sobre as nações vizinhas, para não falarmos de imensas reservas estratégicas de petróleo e minerais. 

Não à toa, os EUA temiam que o Brasil virasse uma “China das Américas” ainda nos anos 1960. E isso não sou eu quem está dizendo: esse temor está registrado numa comunicação secreta do embaixador americano à época do golpe. Junto com o temor de que se o Brasil caísse nas mãos do comunismo, os outros países latino-americanos seguiriam a tendência e se tornariam as próximas peças do dominó, transformando-se em novas Cubas. 

E por isso dominá-lo, melhor, nos dominar, era praticamente o item número um na lista de ações imperialistas dos EUA na América Latina. 

Era e ainda é. Pois trago essa discussão histórica para dizer algo que deveria ser óbvio: as tarifas impostas por Trump ao Brasil seguem a mesma lógica imperial da Guerra Fria, apenas com uma roupagem do século 21.

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