Fórum Popular de mulheres repudia reunião que transformaria projeto Canta Mulher em Patrimônio Cultural Imaterial

Fórum Popular de mulheres repudia reunião que transformaria projeto Canta Mulher em Patrimônio Cultural Imaterial

Não foi ainda dessa vez!
Ontem seria um marco histórico na luta das mulheres, na história da arte feminista na
cultura que atravessou as mulheres de Rondônia.

O patriarcado nos represou mais uma vez, dentro do nosso lócus, dentro da nossa história!

O pedido de vista, foi porque 33 anos de edição do Projeto Canta Mulher não demonstrou
a sua materialidade nos anos consecutivos de realização do Projeto. Talvez, pelo marco
antropológico, penso, não detém esse volume de materialidade, mas, o projeto detém
tecidos e passos que avolumam qualquer que seja a historicidade cultural de um lugar, de
um espaço e tempo.

O bom disso, é o que postulamos sobre o que presenciamos historicamente na história das
sociedades sobre nós mulheres. A partir de então, observamos um legado construído a
base, unicamente por mulheres e para as mulheres, nesse caso, não seria de estranhar, um
pedido de vista a essa história. Estava muito fácil!

As imagens que constam no processo, segundo traz o pedido de vista pelo Conselheiro,
não tinham registros de datas, não trazia depoimentos das artistas, que demarcassem uma
cronologia desse espaço e tempo cultivado por sabedoria, corpos e vozes. Anh! O
positivismo afronta a historicidade, a realidade, o lócus da dinâmica social de uma
realidade (fora da ordem convencional) das megas produções culturais de outros
movimentos já reconhecidos como Patrimônio Cultural. De outra forma, salientamos que,
basta pesquisar no Google e imprensa local que a materialidade do Projeto se estabelece
nas inúmeras trilhas sonoras que dão voz e vida ao projeto.
De que nos vale 33 anos de execução ininterrupta, sem nenhum aporte financeiro público.
Mas todas as edições sempre foram gratuitas com as artistas e músicos recebendo seus
cachês.

Agora a imperfeição nesse contexto, foi não ter sequer uma conselheira mulher
que retrucasse o pedido de vista, ao contrário, salvo engano, foram 11 votos que
reforçaram o pedido de vista. Será por quê? Quem em Porto Velho, em Rondônia não
conhece o Projeto Canta Mulher? Respondo, quem não é daqui. Quem não habita essa
história com o sentimento de pertencimento e de valorização de sujeitos históricos, há
muito invisibilizadas na cultura e na história da civilização humana, pois a história,
sempre foi escrita por homens.

Homens que assumiram a armadura do direito à
propriedade, a ordem, aos “bons costumes da propriedade, da família e do sagrado”, com
a prevalência do poder dominador, de subjetificação e repressão a qualquer forma
libertadora dos corpos e territórios femininos.

FÓRUM POPULAR DE MULHERES – FPM
PORTO VELHO – RONDÔNIA

Bom, não posso dizer que o pedido de vista ao Projeto Canta Mulher vai sanar como
pronunciou o conselheiro as “lacunas” de uma cronologia linear verticalizada nesse
período de tempo, ou em sendo aprovado como Patrimônio Cultural Imaterial, de quem
seria a gestão de tal patrimônio? Ora Conselheiro, como bem respondeu professor Aécio,
de quem sempre lhe deu à luz, daquelas que lhes PARIU, por que gestar um projeto
Cultural como o Canta Mulher por 33 anos, nunca foi de apropriação, de
patrimonialização e poder sobre a arte, pois o projeto na sua materialidade, o seu
patrimônio cultural imaterial, não se dá só pela sua realização, mas pela sua capacidade
de transformar realidades, de alcançar a subjetividade existencial de uma coletividade,
incorporando outros universos que impulsionam, não só a arte, mas a dinâmica da vida
em movimento e suas dimensões culturais, sociais, econômicas e políticas de um
determinado lugar e território. Sobretudo, não de poder, é, e sempre foi de simbiose, de
sinergia coletiva e individual de cada mulher que na sua luta cotidiana, subiu no palco do
Canta Mulher para reafirmar a resistência e a existência de mulheres que fizeram e fazem
da arte o seu palco de luta e sobrevivência…, sempre foi resistir a invisibilidade de uma
sociedade misógina, machista marcada pela sociedade patriarcal.

Daqui, do nosso lugar, imaginamos, quão foi singular a cumplicidade dos conselheiros e
conselheiras que estavam na cena ofuscada pelo desconhecimento da história do projeto
Canta Mulher. Mas em terra de Bandeirantes deve ser assim: num simples olhar atento,
talvez nunca tenham tido o interesse de saber sobre a sua materialidade, espero que a
partir da vista, se vistam de interesses para pesquisar mais sobre a história cultural de
Rondônia e sobre o Projeto Canta Mulher.

Nós do Canta Mulher, vamos continuar nos vestindo de arte, de luta e resistência na
história das mulheres que produzem suas obras como patrimônio e pertencimento cultural
de existência humana!

Por Benedita Nascimento
Fórum Popular de Mulheres
Projeto Canta Mulher/RO.

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