Decreto que dispensa laudo médico para inclusão nas escolas ‘elimina barreira histórica’, diz pedagoga

Decreto que dispensa laudo médico para inclusão nas escolas ‘elimina barreira histórica’, diz pedagoga

Medida assinada por Lula garante atendimento a estudantes com deficiência e transtornos sem diagnóstico

Brasil de Fato – Um novo decreto presidencial determina que escolas de todo o país não poderão mais exigir laudos ou diagnósticos médicos para oferecer atendimento educacional especializado a estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista ou altas habilidades. A medida, segundo Carla Mauch, pedagoga e coordenadora da Mais Diferenças, elimina uma barreira histórica que impedia o acesso de muitas crianças à educação inclusiva.

“Temos que entender que o direito à educação está garantido na Constituição e ele é para todos os estudantes. Portanto, independentemente das questões do diagnóstico, os estudantes têm esse direito”, afirmou a especialista, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Segundo Mauch, o processo para obter um diagnóstico é complexo e não pode ser um requisito para o acesso à aprendizagem. “Isso já estava preconizado na nota técnica nº 4 [do Ministério da Educação (MEC)], mas agora o decreto tem força de lei. As redes começam a se organizar a partir daqui para pensar nessa perspectiva do atendimento educacional especializado como um direito de todos os estudantes”, indicou.

Ela explica que o atendimento educacional especializado (AEE) pode ocorrer no contraturno ou de forma colaborativa com o professor da sala regular. “O AEE não é substitutivo. Ele é complementar e suplementar”, ressaltou.

Mudança cultural e combate ao capacitismo

Para Mauch, o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última terça-feira (21) reafirma o compromisso do Brasil com a educação inclusiva, política implementada desde 2008, e exige uma mudança cultural nas escolas. “A educação inclusiva demanda uma reorganização dos tempos e espaços escolares, da gestão pedagógica. É preciso entender que a diversidade é um valor, não um problema”, disse.

A pedagoga avalia que a medida também ajuda a enfrentar o capacitismo estrutural. “Nós estarmos conversando sobre educação inclusiva em pleno 2025 e com muitas resistências ainda, também mostra como a nossa sociedade é preconceituosa”, afirmou. “Por que ainda insistimos em achar que o lugar dos estudantes com deficiência e autistas não é a escola comum”, criticou.

Formação de professores e desafios

O decreto também estabelece a formação mínima de 80 horas para professores e profissionais de apoio. Para Mauch, o número é apenas um ponto de partida. “Essas 80 horas são o piso, não o máximo. A formação nunca é suficiente, nós estamos sempre em processo de formação”, observou. Ela defende que a capacitação seja pautada em direitos humanos e no modelo social da deficiência, com foco na “eliminação de barreiras pedagógicas”.

Entre os desafios para a efetivação da política, Mauch cita a necessidade de financiamento e engajamento de toda a sociedade. “Nós precisamos de vontade e compromisso de todas as redes de ensino, das famílias, da sociedade. Não podemos mais precarizar a educação. É preciso garantir recursos, investimento e formação”, concluiu.

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