
No Gente de Opinião, por Ana Santos – O Pirarucu do Madeira não é apenas um bloco de carnaval; é um patrimônio vivo da cultura de Porto Velho. Com 34 anos de história, o bloco se destaca pela resistência em manter uma folia totalmente gratuita e inclusiva, sobrevivendo sem a venda de abadás e movido pela paixão de seus organizadores e foliões.
Nesta conversa, Luciana Oliveira, uma das lideranças à frente do projeto, revela os desafios de gerir uma estrutura gigante de forma independente. Ela compartilha os bastidores da logística, a escolha de homenageados em vida — como a emocionante história da Bailarina da Praça — e o papel social do bloco, que levanta bandeiras sobre o meio ambiente, os direitos dos povos originários e o combate ao assédio. Mais do que festa, o Pirarucu se firma como um manifesto político e cultural de inclusão nas ruas de Rondônia.
Entrevista: Luciana Oliveira
“O Carnaval só é bom quando é inclusivo”: A força feminina por trás do Pirarucu do Madeira.
Ana Santos: Luciana, o Pirarucu é um dos blocos mais emblemáticos da cidade. Para você, qual o segredo para manter a essência do bloco viva depois de tantos anos?
Luciana Oliveira: É uma pergunta difícil de responder. A gente nem sabe como o Pirarucu está vivo e desse tamanho, porque ele tem custos, né? Como é um bloco que não vende nada, depende do apoio do poder público e dos foliões, que são nossos eternos colaboradores com pequenas quantias. Então, eu não sei qual é o segredo; é um mistério. Não é fácil manter um bloco durante tanto tempo — são 34 anos de vida — de forma totalmente gratuita e sem cordas. Esse também é o nosso grande desafio daqui para frente: o Pirarucu só cresce, e o que vamos fazer para custear essas despesas? Estamos sempre nos reinventando para agregar valor, conseguir o reconhecimento do poder público e buscar apoio.
A.S: Qual a lembrança mais marcante que você tem do desfile passado?
Luciana Oliveira: Ai, são tantas memórias! O Pirarucu não tem só a sua história, ele conta a história de muitas pessoas que passaram por ele. Nas suas músicas, o bloco traz as figuras do Carnaval de Porto Velho, pessoas que realmente são importantes para a cultura popular; cada uma é uma página riquíssima de memória. Agora, do Carnaval passado, a imagem mais emblemática que fica, sem dúvida, é a da Bailarina da Praça, que foi homenageada e teve a sua vida transformada. Foi o destino que a colocou no nosso sentimento para que ela estivesse em cima daquele trio e tivesse o reconhecimento que perseguiu por mais de 40 anos nas ruas. A vida dela deu um giro de 360 graus: ela conseguiu um emprego, comprou a sua casa e enfrentou o câncer com alegria. Isso vai marcar para sempre.
A.S: Vamos falar da preparação logística e dos bastidores. Muitos foliões só veem a festa, mas como funciona o “corre” antes de o bloco ir para a rua?
Luciana Oliveira: Essa é uma parte que só quem faz Carnaval de rua conhece. O folião, às vezes, pensa que é só chegar, ligar o trio na tomada e a festa está pronta. Mas por trás há uma burocracia enorme de documentação. A prefeitura sempre se mostra presente porque somos Patrimônio Cultural Imaterial de Porto Velho. Além da estrutura, tem a banda, os carregadores dos bonecos gigantes, seguranças, bombeiros civis, ambulâncias e coordenadores. Há 10 anos, o bloco saía “na tora”, com um carrinho pequeno de som. Mas conforme cresceu, a responsabilidade aumentou. O nosso pagamento é a alegria do povo e um desfile em paz, sem violência.
A.S: Lu, como é feita a escolha do tema?
Luciana Oliveira: Sempre escolhemos pensando em alguém importante para a cultura popular e, de preferência, que esteja vivo. Perdemos muitos amigos na pandemia e lamentamos não ter homenageado pessoas como o saudoso Silvio Santos a tempo de eles verem o quanto eram importantes. Depois que o Silvio partiu, isso deu um “estalo” na gente. Já homenageamos a Lú Silva, o Bainha, a Bailarina da Praça e agora o Torrado, o menestrel do samba. O critério é ter legado e poder receber esse carinho em vida.
A.S: Como você enxerga o papel social do bloco para a comunidade?
Luciana Oliveira: O Pirarucu foi precursor de um formato de folia que não existia. Trouxemos campanhas contra a violência doméstica, contra o assédio e por um Carnaval inclusivo. Fomos o primeiro bloco a colocar um tradutor de Libras na abertura. Fizemos até campanha de reflorestamento, plantando seis mil árvores com o engajamento dos foliões. Nunca foi só folia; sempre quisemos transformar a mentalidade da sociedade.
A.S: Sendo uma liderança feminina, quais foram os principais desafios na presidência?
Luciana Oliveira: No início, você é vista com menor importância nos processos de licenças e autorizações. Mas eu e a Fabiane Fernandes, que é meu braço direito, nos impusemos como mulheres caboclas que realizam um trabalho organizado. Hoje falamos de igual para igual. Trouxemos detalhes e sensibilidades que só as mulheres observam, como o Manifesto Indígena em defesa do meio ambiente, algo inédito no nosso Carnaval.
A.S: Para finalizar, defina o espírito do Pirarucu em uma frase.
Luciana Oliveira: “O Carnaval só é bom quando ele é inclusivo.” Se o Carnaval não tem espaço ou respeito para o idoso, para a pessoa com deficiência, para as mulheres e para a diversidade, ele não presta para nós. Essas pessoas são as nossas verdadeiras convidadas VIPs.
