
Rudá Ricci vê na festa da Acadêmicos de Niterói um marco na disputa simbólica contra o bolsonarismo
BDF – Ao levar para a avenida uma homenagem ao presidente Lula, a Acadêmicos de Niterói transcendeu a festa e entrou no campo da disputa política e simbólica, disse o cientista político Rudá Ricci ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. O desfile, repleto de referências à resistência democrática — com alas que lembraram o golpe contra Dilma Rousseff, a prisão de Lula e críticas a Michel Temer e Jair Bolsonaro —, reacendeu o debate sobre os limites entre arte, política e propaganda eleitoral.
Ricci lembra que a homenagem não é um fato inédito. “JK foi homenageado, Getúlio Vargas teve duas ou três, Lula essa é a terceira. Bolsonaro teve, Temer teve. O fato em si não é novo”, lembra No entanto, o contexto de ano eleitoral e a reação virulenta da oposição colocam a questão em outro patamar.
Ricci consultou juristas sobre a legalidade da homenagem. “Alguns dizem que, primeiro, não foi ninguém do governo — nem Lula, nem Janja, nem ministro — e isso conta. Segundo, o enredo falava do passado, não do presente. Isso talvez crie uma saída jurídica.” Mas o cientista político vai além da análise legal. Para ele, o que está em jogo é a disputa de narrativas e a ampliação dos limites do aceitável no debate público — o que os norte-americanos chamam de “janela de Overton”.
“O bolsonarismo quebrou essa janela ao atacar mulheres, negros, homossexuais, outros poderes, ministros do STF [Supremo Tribunal Federal]. Agora, o lulismo também quebrou os batentes da ‘janela de Overton’ ao usar uma festa popular para homenagear um político vivo em ano eleitoral. Vai dar uma briga jurídica, mas se passar tranquilo, acaba essa história de que não pode.”
O desfile da Acadêmicos de Niterói escancarou uma percepção que, para muitos, estava restrita à “bolha” da esquerda: a de que Dilma sofreu um golpe, que Lula foi preso injustamente e que Temer e Bolsonarorepresentavam interesses do capital.
Ele destaca que o campo lulista, após a campanha de reeleição de Dilma em 2014, parece ter recuperado a capacidade de disputar narrativas no macroespaço — nas redes sociais e, agora, na cultura popular. “O lulismo volta disputar a narrativa no macro espaço, nas redes sociais, e, agora, na cultura popular”, observa Ricci. “Isso deixa os bolsonaristas esperneando, porque perderam a dianteira que tinham.”
O desafio, alerta, será traduzir esse discurso geral em comunicação fragmentada para nichos específicos, como o bolsonarismo fez em 2018 com os grupos de WhatsApp.
Banco Master: semelhança com caso Epstein
Além do Carnaval, Ricci fez uma análise do escândalo do Banco Master, que deixou de ser estritamente financeiro para se tornar um imbróglio político de grandes proporções. “Há uma série de notícias que dão o panorama de um escândalo de grandes proporções”, afirma.
Ele cita as revelações de que o dono do banco contratava garotas de programa de vários países e as oferecia a políticos em festas — uma aproximação com o escândalo Epsteinnos Estados Unidos. “Isso começa a se ramificar para muitos políticos do Congresso Nacional. Vários jornais citam o centrão como principal grupo envolvido.”
Ricci faz um alerta aos jornalistas: “Na política, quando um escândalo envolve muitas correntes, partidos e lideranças, a tendência é abafar. Quando o foco é um bloco só, a tendência é sangrar. A impressão é que envolve o centrão, mas não só. Vocês vão ter que ficar muito atentos.”
Outro capítulo comentado é o vazamento do diálogo entre os ministros do STF que culminou no afastamento de Dias Toffoli da relatoria do caso Master. A imprensa tem apontado Toffoli como o autor do vazamento, mas Ricci duvida. “Não tem sentido o Toffoli ter vazado. Se ele gravou, gravou para ter poder de chantagem. Se vaza, perde esse poder. No máximo, vazaria um pedacinho.”
Ricci evita apontar culpados, mas questiona: “A quem esse vazamento daria força política dentro do STF? Não facilita a vida de Flávio Dino, de Alexandre de Moraes, de Mendonça, do próprio Toffoli. Esse tema ainda vai render muito.”
