10 de março: dia de lembrar que 8 de março são todos os dias

10 de março: dia de lembrar que 8 de março são todos os dias

A luta contra o machismo e a misoginia não pode ficar restrita a um dia simbólico

247, por Oliveiros Marques – Hoje é 10 de março. O 8 de março passou. Ontem, dia 9, a imprensa ainda dedicou alguns espaços – pequenos, diga-se – para repercutir os atos ocorridos no último domingo em várias cidades do país. Mulheres e homens foram às ruas para lembrar que o Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data no calendário, mas um marco de luta por igualdade, respeito e dignidade.

Passado o fim de semana de mobilizações, é hora de lembrar algo essencial: o 8 de Março precisa existir todos os dias.

A luta contra o machismo e a misoginia não pode ficar restrita a um dia simbólico. Ela precisa acontecer nas ruas, nas redes sociais e, principalmente, dentro de cada um de nós – especialmente entre nós, homens. Porque a cultura machista não é apenas um problema externo. Ela está entranhada em práticas cotidianas, em piadas que repetimos, em comentários aparentemente inofensivos, em atitudes que naturalizam a inferiorização das mulheres.

É nesse ambiente que se constrói o caldo cultural que sustenta a violência contra a mulher.

Quando mulheres são tratadas como objetos, quando suas vozes são diminuídas, quando situações de assédio são relativizadas ou ridicularizadas, cria-se um terreno fértil para algo muito mais grave: a violência física e, em seu extremo mais brutal, o feminicídio.

Os números brasileiros são alarmantes. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 1.400 mulheres são vítimas de feminicídio por ano no país – quase quatro por dia. E esses são apenas os casos que chegam às estatísticas oficiais. Todos os dias, milhares de mulheres sofrem agressões físicas, psicológicas e sexuais dentro de casa, no trabalho, no transporte público ou nas ruas.

Esse cenário não se combate apenas com leis. Ele também depende do ambiente político e cultural que se constrói a partir da liderança de um país.

Durante o governo Jair Bolsonaro, infelizmente, vimos repetidas demonstrações públicas de machismo e desrespeito às mulheres. O então presidente afirmou, por exemplo, que uma deputada “não merecia ser estuprada” porque era “muito feia”. Disse que teve uma filha mulher porque deu uma “fraquejada”. Em outro momento, afirmou que as mulheres deveriam ganhar menos porque engravidam. Houve ainda ataques constantes a jornalistas mulheres, comentários depreciativos sobre lideranças femininas e um ambiente de desprezo que legitimava discursos de ódio.

Quando um governante normaliza esse tipo de postura, ele envia um sinal perigoso para a sociedade: o de que o machismo é tolerável.

Felizmente, o país começou a trilhar um caminho diferente. O governo do presidente Lula recolocou o combate à violência contra a mulher no centro da agenda pública. Foi lançado o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, envolvendo os três poderes da República. O Ministério da Justiça e as forças de segurança também realizaram uma megaoperação nacional que resultou na prisão de mais de 5 mil fugitivos acusados de agressão ou homicídio contra mulheres.

São iniciativas importantes, que mostram que o Estado precisa agir com firmeza para proteger as mulheres.

Mas nenhuma política pública será suficiente se não houver mudança cultural. Essa transformação começa nas conversas entre amigos, nas atitudes dentro de casa, na forma como educamos nossos filhos e no compromisso de cada homem em não reproduzir comportamentos machistas.

A luta contra o feminicídio é permanente. Ela não termina no 8 de Março. Ela precisa continuar todos os dias – nas ruas, nas redes e dentro das nossas próprias cabeças.

E também precisa chegar às urnas.

Porque quando um governante sinaliza que o machismo é aceitável, abre-se uma porteira perigosa. Uma porteira por onde os monstros do machismo que ainda habitam muitos homens se sentem autorizados a ganhar as ruas. Defender a vida das mulheres é também escolher lideranças que não alimentem essa cultura, mas que ajudem a transformá-la.

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