
Empresas não divulgam dados muito precisos sobre o consumo de recursos naturais em data centers, diz Lilian Berton
Brasil de Fato – As informações sobre o volume de água que é utilizado no uso de ferramentas de Inteligência Artificial deveria ser feito de forma mais transparente por parte das empresas donas dos data centers que armazenam fisicamente este tipo de serviço. É o que defende Lilian Berton, professora adjunta no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Em entrevista ao Conversa Bem Viver, a pesquisadora na área de tecnologia falou sobre os impactos da utilização de recursos naturais, como a água, para a manutenção de grandes infraestruturas de empresas de IA. Para ela, mais que saber a quantidade de água que serve para o resfriamento do sistema de máquinas que operam a IA, é importante também pensar na forma de tratamento químico dessa água, que em dado momento é reintroduzida ao meio ambiente e pode não estar própria para consumo.
Segundo a pesquisadora, um dos caminhos mais viáveis para termos menos impactos ambientais da tecnologia, seria a criação de regulamentações, Para isso ela entende que a mobilização social é importante. “Cabe à população cobrar a criação de leis. No Brasil, a gente não tem quase nenhuma regulamentação de uso de software de IA. A gente precisa disso para trazer uma tranquilidade de saber que os recursos e essas novas tecnologias estão sendo usadas adequadamente no nosso país”, disse Berton.
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato: No contexto da Inteligência Artificial, gostaria que você pudesse começar explicando o que são os data centers e por que dependemos deles?
Lilian Berton: Um data center é um prédio, uma construção física em um local, e ele possui uma infraestrutura de gerenciamento de equipamentos de hardware, software e redes. Nesses data centers, tanto do Brasil quanto dos outros países, costuma ter vários servidores, armazenados lá dentro. E o que que é um servidor? É como se fosse um computador mais potente do que esses que a gente tem nas nossas casas. Ele tem uma capacidade de processamento maior, ele tem mais memória e placas de vídeo. Então ele tem todos os componentes mais elaborados ou com mais poder computacional do que um simples computador que a gente tem na nossa casa.
E esses data centers vão ter centenas ou milhares desses computadores. E a estrutura física pode ser na forma de rack, como se fosse gavetas, onde você vai colocando todos os computadores, torres, que aí lembra um pouco esses desktop antigos, então tem vários formatos.
E eles precisam ter toda uma infraestrutura para conservar isso da melhor forma possível. E o que que essa infraestrutura precisa ter? O resfriamento, porque os computadores aquecem bastante,
Além disso, uma infraestrutura energética muito bem organizada. Eles também consomem energia e precisa ter também geradores, porque eles nunca podem desligar. Eles funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, a todo momento. Então, você precisa garantir energia 100% do tempo. E você também precisa de uma estrutura de rede.
Porque todos esses computadores estão conectados por cabos de redes que vão conectar a todos nós usuários desses serviços. Basicamente, um data center é composto por esses componentes principais aí que eu mencionei.
O consumo de água exacerbado que vem sendo pautado é para resfriar todas essas máquinas, é isso?
Grande parte sim, é para resfriar as máquinas. É possível resfriar as máquinas de duas maneiras, por meio de ventiladores movidos por energia elétrica ou então por meio de água. Mas de qualquer forma vai usar um recurso, seja eletricidade ou água.
Muitos data centers estão optando por fazer a maior parte do resfriamento por meio de água, Por isso que está sendo discutido esse consumo nos data centers também.
Como é que funciona esse resfriamento de água? Nos data centers passa um líquido especial, que vai circulando por eles, para tentar absorver o calor gerado. Esse líquido vai ser deslocado para uma outra região, como se fosse uma cisterna, que vai resfriar esse líquido para que ele volte a circular. Boa parte dessa água que é usada no resfriamento, evapora e retorna para o meio ambiente. Em alguns locais falam que cerca de 70%, 80% da água é evaporada, só não se sabe exatamente quando.
E aquele exato momento pode ser que essa água pudesse estar sendo necessária para abastecer uma cidade, no entanto, está abastecendo o data center, e até ela fazer todo o ciclo e voltar, pode ser que demore um tempo. No entanto, o problema maior não é essa água que é evaporada. Uma parte é evaporada, uma parte se mantém ali no reservatório. Essa parte que é mantida começa a concentrar muito mais minerais, e vai ficando mais pesada. Depois, essa água que fica é reintroduzida também no ambiente e pode não estar tão própria para consumo, na forma que ela vai ser reintroduzida.
Pode ser que as empresas coloquem alguns aditivos químicos nessa água para evitar a proliferação de algas, de microorganismos, então até que ponto esses aditivos químicos podem estar interferindo no consumo da água? Parte dela ficaria inviável ou precisaria de um certo tratamento para voltar a ser consumido pelas pessoas.
Porque essa água para o resfriamento precisa ser uma água potável?
Não precisa necessariamente ser água potável. As empresas poderiam fazer um sistema de uso de água de chuva. No caso de utilizar uma água não potável, elas teriam um custo de não deixar a água tão poluída ou suja, porque pode danificar o próprio sistema. Essa água pode ter alguns componentes que também vão danificar as tubulações. E é como funciona o mundo capitalista, você quer minimizar seus custos, Então é mais fácil pegar água que tá vindo tratada lá da torneira. Então nem todas [as empresas] podem estar dispostas a fazer um sistema para captura, tratamento de água não potável. Mas seria viável, com certeza.
No Brasil com esses 160 data centers, já se tem uma ideia de quanto de água se utiliza fazendo o resfriamento e a manutenção desses equipamentos?
Não, não temos uma resposta precisa sobre isso. A maioria das empresas não divulgam dados muito precisos sobre o consumo. Às vezes elas divulgam alguns dados vagos.
Sam Altman, que é o CEO da OpenAI, já foi questionado sobre quanto o ChatGPT consome. Às vezes, ele responde que para cada questão que um usuário faz, consome uma gota. Mas pesquisadores de universidades que fizeram também aproximações de consumo e acham que não é verídico esse consumo relatado pelo CEO da OpenAI. E que o consumo é muito maior. Já tiveram outras estimativas que falam que para cerca de 10 perguntas que você faz para uma LLM [Large Language Model], se consome meio litro de água.
Mesmo por meio dessas aproximações, a ideia que se tem é que é um consumo alto. Não é muito claro também o consumo por cada tipo de serviço. Nesses data centers, há tanto a parte de IA sendo processada, como por exemplo essas LLM, tem também só hospedagem de sites e dados.
Seria interessante discriminar o serviço e como cada serviço consome mais ou menos recurso. Mas eu acredito que provavelmente as ferramentas que usam IA são as que mais consomem, porque elas têm um custo computacional muito mais alto. Deveria ter mais transparência por parte das empresas para com a população.
Nós, como sociedade, precisamos de um desenvolvimento tão acelerado de inteligência artificial ou talvez a solução seja entender que a gente não consegue acelerar tanto esse desenvolvimento, se ele significar o uso exacerbado dos nossos recursos minerais?
É muito difícil a gente frear o desenvolvimento. Vocês podem ver, por todas as tecnologias que foram sendo desenvolvidas, desde as primeiras revoluções industriais, o desenvolvimento do automóvel, dos aviões, tudo consome recursos naturais de alguma forma. E sempre tem algumas pessoas que vão criticar, vão falar que deveria ser tomado alguma medida, só que no mundo que a gente vive hoje é muito difícil controlar isso.
Em parte, por causa das políticas, de como a sociedade hoje funciona e parte também pela comodidade que as tecnologias trazem para as pessoas. Então, é difícil as pessoas quererem abrir mão da comodidade que elas têm, mesmo sabendo que essa comodidade tem consequências. E assim é com a inteligência artificial e com essas ferramentas computacionais. Elas trazem comodidade para as pessoas, elas começam a fazer tanto parte do seu dia a dia, que você nem se dá conta, e quando você percebe toda sua vida está girando em torno desses serviços, dos algoritmos e de tudo que ela tá realizando.
O que deveria ser buscado, debatido, cobrado, são leis, regulamentações, cobrar dos políticos que regulamentem ou que cobrem das empresas o controle dos recursos naturais. Acho que isso é mais viável de lutar do que “vamos parar de usar tecnologia”.
De uma maneira mais direta: quais medidas a gente precisa cobrar? E aproveitando, queria que trouxesse se há algum país que já tem avanços nesse sistema de regulamentação de IA.O Brasil tem condições de ser pioneiro nesse sentido?
O Brasil, ele tem um certo interesse, de instalação de data centers, por essa promessa de energia renovável que o Brasil tem. Nós temos bastante energia eólica, energia solar e mesmo essas energias renováveis, elas também tem um certo impacto ambiental, mas muitos data center são instalados com essa promessa que estão usando essas fontes renováveis.
Na Europa, onde é um ambiente mais frio, o calor que é gerado nos data centers, eles não necessariamente tentam resfriar como aqui, mas eles canalizam esse calor pro aquecimento das residências. Achei uma solução interessante. Em vez de você tentar resfriar, você distribui o calor gerado para aquecer as residências e poupar energia de aquecimento.
Acredito que tem que ser pensado alguma solução que seja seja factível para o nosso país. Certamente aqui aproveitar o calor, não sei se faz sentido, porque o nosso país é tropical, mas talvez pensar mais o uso da água, usar água de chuva ou pensar uma forma de tratar da água que é utilizada. Ou ainda, essas próprias empresas instalarem sistemas próprios de energia elétrica, para não usarem recursos do país, terem uma planta de energia solar própria, por exemplo. Isso tudo já iria reduzir os impactos, para população do Brasil, já que nós teríamos que dividir a nossa energia com essas empresas ou a água de consumo das cidades com essas empresas.
O Brasil não costuma ser muito pioneiro nessas leis de regulamentação, mas nós já estamos começando a ver algumas. Tem um PL [projeto de lei] que já passou no Senado, acho que ano passado, de regulamentação de IA no Brasil e agora ela seguiu para outra instância e precisa ser votada. Também cabe a população, cobrar a criação de leis. No Brasil a gente não tem quase nenhuma regulamentação de uso de software de IA. A gente precisa disso para trazer uma tranquilidade de saber que os recursos e essas novas tecnologias estão sendo usadas adequadamente no nosso país.
