A classe trabalhadora, a esquerda e a eleição nos EUA

A classe trabalhadora, a esquerda e a eleição nos EUA

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Por Raphael Benvilaqua
Procurador da República

O mundo “progressista” acordou abalado com a eleição de Donald Trump para a presidência da maior potência econômica e militar do mundo.

Trump é apenas a coroação de um fenômeno mundial: o nacionalismo de direita (brexit, Turquia, França, Áustria, vários países do leste europeu e etc).

Uma tragédia anunciada não só por causa da crise econômica de escala global, mas também reflexo do desgaste da política tradicional – uma percepção generalizada de que as “escolhas” no sistema eleitoral burguês são ilusórias –, refletindo-se na crença desesperada em líderes messiânicos que apresentam soluções simples para problemas complexos – por mais equivocadas e desastradas que essas “soluções” sejam.

A ascensão dessa nova direita deve chamar atenção do campo “progressista”, especialmente daqueles que reconhecem seu protagonismo na história, e provocar intensa reflexão e o exercício da autocrítica.

Trump, assim como quase todos os candidatos da nova direita messiânica, é reconhecidamente xenófobo, machista, racista e homofóbico, o que, de imediato, desperta nossa repulsa. No entanto, infelizmente, a maioria da população mundial ainda tem ideias tão arcaicas quanto – ou pior, ainda que reconheçam a invalidade moral de tais comportamentos/ideias, enxergam problemas maiores e mais imediatos para sua vida diária: o pão que colocam em suas mesas.

Trump, como outros políticos de matriz ideológica semelhante, foi eleito com o voto de grande parte da classe trabalhadora, dentre eles imigrantes, mulheres, negros e gays. O que todos eles têm em comum: as necessidades básicas de pessoas afetadas diretamente pela globalização, o desemprego, a fome e a falta de moradia.

Acontece que o candidato republicano praguejou contra Wall Street e contra as elites (embora seja um legítimo representante delas), prometeu salvar até mesmo os empregos dos trabalhadores da indústria automobilística e do carvão com políticas protecionistas de cunho econômico e xenófobo – construindo muros -, tudo isso contra uma candidata que era a cara do poder econômico estabelecido, mas que se apresentava com uma face amistosa às pautas liberais e identitárias.

Sem querer diminuir os discursos morais e setoriais do campo progressista, desde Marx, é necessário compreender que a emancipação da humanidade deve ter natureza universal: é imprescindível a construção de um projeto holístico de supressão das classes sociais, sem o qual será impossível suprimir qualquer forma particular de opressão.

Em suma, é necessário entender que a defesa de todas as minorias é fundamental, mas não uma tarefa segmentada, e sim um fim comum e com corte de classe. A crítica e o combate ao racismo, machismo e homofobia é uma luta diária, mas é indispensável não perder de vista que o trabalhador das jornadas exaustivas de sol a sol, que recebe, na maioria das vezes, um salário insuficiente para seu próprio sustento (ou está desempregado) e que, algumas ou muitas vezes, pode ter atitudes machistas, racistas ou homofóbicas (ainda que influencido pela cultura hegemônica de classe) não é o inimigo. O inimigo está fechando o cerco sobre nós e rindo das nossas subdivisões incendiárias e autodestrutivas.

Discursos cheios de neologismos e expressões cunhadas por nós e para nós, especialmente para o nosso “segmento dentro do segmento”, podem impressionar o mundo acadêmico, mas não transformam a realidade. Resumidamente, nossas tarefas, para ontem, são: estudar economia, as estruturas da sociedade e aprender a dialogar com as massas, todos os segmentos dela, de forma simples e direta.

Mais do que nunca, são as convergências, não as divergências e arroubos setoriais, que podem nos fazer reagir a esse cenário. Trabalhadores mulheres e homens, pretos e brancos, gays e héteros: uni-vos!

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