
Ativistas lembram que a máquina retirada do Km 2 da EFMM é patrimônio atualmente sob responsabilidade da Prefeitura e se encontra tombada pela Portaria Iphan 231/2007
Do Expressão Rondônia
PORTO VELHO – Duas décadas depois do silencioso roubo de um vagão inteiro da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no início dos anos 1990, agora ordenaram a retirada de uma locomotiva do sítio histórico da Candelária, no Km 2, para enfeitar o Espaço Alternativo na Avenida Jorge Teixeira de Oliveira, caminho para o aeroporto internacional. O vagão se encontra até hoje no quintal de uma mansão do Lago Paranoá, em Brasília; a locomotiva foi também parar em estranho ninho.
Essa transferência a pedido do Departamento de Estradas de Rodagem, deixou inconformados defensores do patrimônio histórico. Eles agora insistem com o Ministério Público na elucidação dessas negociações.
Com a desativação do Museu da EFMM, grande parte do acervo foi depositada num barracão da zona leste de Porto Velho desde a gestão do ex-prefeito Mauro Nazif. O atual ainda o mantém lá, pagando mensalmente aluguel superior a R$ 20 mil.
Irritado, o ativista Manuel João Madeira Coelho, o Manuel Português, enviou ofício em caráter urgente à superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Delma Batista Siqueira, solicitando-lhe cópia total do processo instaurado pelo órgão, autorizando o deslocamento da locomotiva do acervo móvel da EFMM até o Espaço Alternativo.

Manuel lamenta que o Município de Porto Velho ceda, cada vez mais, a “caprichos reprováveis” sob o ponto de vista de preservação do patrimônio histórico. A locomotiva, ele lembra, é de domínio da Prefeitura e se encontrava no Km 2, sítio Candelária da EFMM. Ela faz parte do Tombamento descrito na Portaria Iphan 231/2007.
Para o arquiteto Luiz Leite de Oliveira, presidente do Conselho de Administração da Associação de Preservação do Patrimônio Histórico e Amigos da Madeira-Mamoré (Amma), a situação é crítica. Ele diz que existe “uma sucessão de desmazelos e crimes de lesa-pátria contra o patrimônio da mais lendária ferrovia do mundo no século passado”.
“Não pensei que tivessem essa coragem”, lamentou. O arquiteto também quer “imediato posicionamento dos Ministérios Públicos Estadual e Federal” a respeito do problema.

“Inaceitável que isso aconteça. Outra vez podemos dizer com todas as letras que Rondônia é terra sem limites, onde tudo se admite. Praticaram um crime que nem a ditadura militar teve coragem de fazer”, lamenta.
Luiz Leite lembra que o 5º Batalhão de Engenharia de Construção devolvera anteriormente a locomotiva para a EFMM. “Hoje, tudo acontece ao contrário, um horror”, critica.
Segundo o arquiteto, a Amma dispõe de um acervo de documentos que comprovariam o que ele classifica de “assunto hediondo”. “Pior de tudo é que o Iphan, a quem cabe maior zelo ou zelo total com o patrimônio ferroviário, junta-se ao SPU [Secretaria de Patrimônio da União] e ao Governo de Rondônia [dono da obra do Espaço Alternativo] para a prática desse rumoroso desmonte”.
Enquanto isso, no depósito municipal…
No depósito alugado pela Prefeitura de Porto Velho no Bairro Lagoinha, após a cheia de 2014, repousam peças pesadas da EFMM, a maior parte delas deteriorada pela ferrugem e sem data para recuperação. Ela foi anteriormente cogitada pela Fundação Cultural.



