A eleição da influência digital

A eleição da influência digital

Apesar de alguns youtubers no Brasil terem audiências de causar inveja a emissoras, eles não precisam, por exemplo, garantir espaço igualitário a todos os candidatos nos seus canais.

El País

ALANA RIZZO | CLARA BECKER


Influenciadores digitais
 e seus milhares de seguidores —milhões, a depender do @ em questão— estão preparados para participar com responsabilidade do debate democrático nas redes sociais? Eles sabem o que é permitido ou não pela legislação eleitoral? Conseguem identificar conteúdos enganosos com verniz de jornalismo e não cair na armadilha de passar fake news adiante?

Em um pleito como as eleições municipais de 2020, no qual, mais uma vez, as redes sociais serão arena do debate público ―e ao que tudo indica de forma ainda mais intensificada por causa da pandemia―, os influenciadores e órgãos eleitorais precisam reconhecer a responsabilidade que esses atores carregam e o impacto que são capazes de promover.

Eles não se chamam influenciadores à toa. A revista americana Entrepeneur apontou que 80% do tráfego online está ligado a algum tipo de influenciador e que 92% dos consumidores acreditam mais na recomendação deles do que de instituições. Após amigos e parentes, eles já são a segunda fonte de tomada de decisão para consumidores, de acordo com estudo da Qualibest.

O problema é que no período eleitoral, não são apenas decisões de consumo que podem ser influenciadas, mas os próprios rumos do debate político e, até mesmo, decisões sobre votos. Nos últimos meses o Redes Cordiaise o InternetLab, um centro de pesquisa independente sobre direito e tecnologia, se debruçaram sobre essa questão para elaborar um guia para influenciadores nas eleições de 2020. No percurso, nos deparamos com mais perguntas do que respostas.

Enquanto emissoras de rádio e de TV, que são concessões públicas, devem seguir uma série de regulamentações relacionadas à comunicação e à propaganda em época de campanha eleitoral para garantir a igualdade de chances entre candidatos, o mesmo não acontece com canais e perfis nas redes sociais. Apesar de alguns youtubers no Brasil terem audiências de causar inveja a emissoras, eles não precisam, por exemplo, garantir espaço igualitário a todos os candidatos nos seus canais. Não existem regras específicas para a garantia de igualdade de chances, nem uma norma explícita que proíba ou restrinja a realização de entrevistas com candidatos ou a reprodução de uma conversa com eles nas redes sociais.

Como a legislação não resolve todos os problemas éticos e de responsabilidade sobre como influenciadores devem participar do debate político, a consciência do influenciador sobre seu papel e sua responsabilidade na construção de um debate democrático livre, transparente e plural pode fazer enorme diferença para os usuários e para os candidatos e candidatas. Mesmo que algumas condutas não sejam ilegais, elas podem acabar prejudicando o debate democrático e enganando os seguidores do influenciador.

Para esses casos nas brechas da lei, o guia traz uma “bússola” de princípios para ajudar a tomar decisões difíceis. São eles a liberdade de expressão, transparência, responsabilidade, pluralismo.

O objetivo do guia é suprir uma carência do mercado e oferecer as ferramentas necessárias para que influenciadores e produtores de conteúdo em redes sociais participem do processo eleitoral de maneira democrática, segura e ética. Outras tantas perguntas foram respondidas e transformadas em uma caixa de ferramentas. Como, por exemplo, qual a diferença entre demonstrar apoio político e fazer propaganda eleitoral na internet? Ou se eu for amigo, parente ou conhecer um candidato da minha cidade, eu posso apoiar ele nas redes? O que é a boca de urna digital? Como evitá-la?

O tira-dúvidas foi desenhado para os influenciadores digitais, mas vale lembrar que hoje em dia somos todos influenciadores, no grupo da família, no chat do trabalho, na escola. E somos nós ― não os robôs ― os responsáveis pela disseminação das fake news. Podemos colaborar filtrando melhor os influenciadores que seguimos nas redes sociais e também o conteúdo que compartilhamos durante as eleições.

Alana Rizzo e Clara Becker são jornalistas e cofundadoras do Redes Cordiais, projeto de combate à desinformação e aos discursos de ódio em redes sociais

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