
UOL, por Leonardo Sakamoto – O ex-presidente Jair Bolsonaro assumiu que o tarifaço de 50% de Donald Trump sobre os produtos brasileiros são “sanções”, em postagem em suas redes sociais neste domingo (13).
Reafirma, dessa forma, algo que o ministro Alexandre de Moraes, relator do seu processo por tentativa de golpe de Estado no STF, já está careca de saber: o clã Bolsonaro agiu nos EUA para punir o Brasil a fim de interferir no julgamento.
Ao tratar do tarifaço de Trump, Bolsonaro sabe que a medida vai atingir os trabalhadores e empresários: “Não me alegra ver sanções pessoais, ou familiares, a quem quer que seja. Não me alegra ver nossos produtores do campo ou da cidade, bem como o povo, sofrer com essa tarifa de 50%”.
Mas prioriza a si mesmo: “O tempo urge, as sanções entram em vigor no dia 1° de agosto. A solução está nas mãos das autoridades brasileiras. Em havendo harmonia e independência entre os Poderes nasce o perdão entre irmãos e, com a anistia também a paz para a economia”.
Ele sempre disse que colocaria a liberdade acima de tudo, o que não explicou é que se referia à sua liberdade pessoal, acima até dos interesses da pátria. Por jogar contra a economia e os empregos do país em conluio com um governo estrangeiro, comete traição. Mas também impõe uma chantagem do tipo mais grosseiro.
Imaginem que o PCC emita um salve ordenando que os seus membros toquem o terror nas ruas de São Paulo até que um de seus líderes, seja solto. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso diria que é inaceitável um Estado ceder à chantagem para liberar quem cometeu crimes graves.
É fascinante, portanto, que quando a questão envolve Bolsonaro, muitos resolvam passar pano. Mesmo que tentativa de golpe de Estado e de dissolução violenta do Estado democrático de direito, além de organização criminosa, sejam também crimes gravíssimos cujo perdão e anistia não deveriam ser tolerados — sob risco de morte da própria democracia.
Os Estados Unidos são um país soberano, não uma máfia, podem, portanto, implementar quaisquer tarifas à importação por motivos técnicos — sabendo, claro, que haverá reciprocidade. Mas, ao usá-las para ameaçar sancionar outra democracia e interferir em seu Poder Judiciário, ameaçando milhares de empregos e bilhões de dólares, comporta-se como chantagista.
O clã Bolsonaro vem frisando claro que Trump só devolverá a nossa economia caso o STF interrompa o julgamento ou o Congresso Nacional aprove uma anistia que beneficie Jair. Trabalham com a hipótese de que os parlamentares vão acabar se borrando nas calças diante da faca no pescoço imposta por Washington DC e ceder.
O mais irônico é que o governo Trump quer que Lula atue como Nicolás Maduro, interferindo em outras instituições (o STF, no caso). E o bolsonarismo, que chama o Brasil de Venezuela, quer que o país se comporte como uma autocracia e chute suas instituições para impedir que o mito vá parar no xilindró.
Há quem diga se alimentar de princípios democráticos, mas, na verdade, come outra coisa, porque seu hálito exala cinismo.
