Qingming: a data em que chineses honram seus mortos e mártires revolucionários em uma tradição filosófica milenar

Qingming: a data em que chineses honram seus mortos e mártires revolucionários em uma tradição filosófica milenar

Historiador da Fudan explica como a data articula filosofia confuciana, memória revolucionária e identidade nacional

Brasil de Fato – Todo ano, por volta do início de abril, a China celebra o Qingming, uma das datas mais importantes do calendário chinês. É o momento em que os chineses visitam túmulos de familiares e realizam cerimônias em memória dos mártires revolucionários. Diferente do Dia de Finados, o Qingming não é uma data litúrgica: não está vinculado a uma tradição religiosa específica, não tem ritos formais de missa e não pressupõe uma teologia sobre o que acontece depois da morte. Para entender essa tradição, o Brasil de Fato conversou com o historiador Fan Yongpeng, vice-presidente do Instituto da China da Universidade de Fudan.

O Qingming tem origem no calendário agrícola chinês. É um dos 24 termos solares, forma de organização do tempo que a civilização chinesa criou para orientar ciclos de plantio e de colheita de acordo com os movimentos do sol. O nome significa “Claro e Brilhante”, uma referência ao clima característico dessa época do ano. Com o tempo, essa data do calendário tornou-se também um momento para homenagear os finados.

Segundo Fan, ao contrário do cristianismo, que estabelece uma relação contratual entre os seres humanos e Deus, o pensamento chinês tradicional não concebe a relação com o Céu nesses termos. “Tampouco é uma religião de revelação: não existe a ideia de ouvir diretamente a voz de Deus”, explica o historiador. “Por isso, a China não desenvolveu instituições como sacerdócios ou igrejas. Em vez disso, surgiu uma classe de letrados e intelectuais para interpretar a vontade do Céu. Com o tempo, isso levou à ideia de que o povo representa a vontade do Céu”, diz Fan.

O professor Fan explica que, na China, a compreensão sobre a morte foi mudando ao longo dos séculos, e embora haja diferenças entre tradições como o budismo e o taoísmo, hoje em dia muitos chineses não realizam os rituais do Qingming com a crença literal de que os mortos habitam um reino separado. A relação com os mortos, nesse contexto, não é religiosa no sentido ocidental do termo.
“Nesse contexto, o Qingming tem menos a ver com uma crença literal nos ancestrais como deuses e mais com prática ritual e cultural”, afirma Fan. “Quando as pessoas visitam túmulos, queimam oferendas de papel ou apresentam alimentos, a maioria não acredita literalmente que os mortos as recebam. Esses atos são expressões de respeito pelos que vieram antes e de reverência pela história”.

Fan ilustra essa ideia com uma passagem do próprio Confúcio: “Ofereça sacrifícios aos espíritos como se eles estivessem presentes”. Para o historiador, a palavra “como se” é fundamental. “Se os espíritos estão ou não presentes de fato não é o ponto central: o importante é expressar respeito e reverência”, diz. “Seja no Qingming ou em outros rituais, o significado mais profundo dessas práticas se dirige aos vivos, não aos mortos. Elas servem para expressar valores, emoções e vínculos sociais entre os vivos”.

Mártires revolucionários

Durante o Qingming, a homenagem aos mortos não se restringe aos familiares. São também lembrados os que sacrificaram suas vidas em guerras e revoluções. Esse aspecto da data foi se firmando nas últimas décadas.

Em 1937, durante a guerra contra a agressão japonesa, o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang realizaram conjuntamente uma cerimônia nacional diante do túmulo do Imperador Amarelo, ancestral mítico da civilização chinesa, com texto comemorativo redigido por Mao Zedong. Poucos anos depois, ao publicar o ensaio “Servir ao Povo” em homenagem ao soldado Zhang Side, morto em serviço, Mao formulou o princípio de que qualquer pessoa, independente de sua função, merece homenagem pública se tiver servido ao povo. Esse princípio passou a orientar as cerimônias em memória dos mártires durante o Qingming.

Hoje, o Estado chinês instituiu três datas nacionais de memória que expressam essa mesma lógica. Segundo Fan, são: o 3 de setembro, Dia da Vitória, que marca o fim da Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa; o Dia dos Mártires, em setembro, em homenagem aos que sacrificaram suas vidas; e 13 de dezembro, Dia Nacional em Memória das Vítimas do Massacre de Nanjing. “Essas três datas representam três camadas de significado: lembrar o sofrimento, honrar o sacrifício e celebrar a vitória”, afirma o historiador. “Juntas, expressam uma narrativa: ao lembrar o sofrimento, fazer sacrifícios e perseverar, um povo pode, afinal, vencer”.

Identidade nacional e Sul Global

A memória dos mortos, para Fan, cumpre uma função política concreta: ela constrói ao mesmo tempo um vínculo histórico com o passado e um sentido de pertencimento coletivo no presente, dois pilares da identidade nacional chinesa moderna. O historiador descreve essa concepção como uma “comunidade que atravessa o tempo”, na qual a memória dos mortos é também um ato de afirmação nacional.

Para Fan, essa experiência tem relevância para outros povos. “Ao longo de seus 5.000 anos de história, mesmo diante de reveses, a China sempre conseguiu se reerguer”, afirma. “Essa resiliência vem de um forte sentido de continuidade histórica, de uma ‘comunidade que atravessa o tempo’, e de um espírito moldado pela memória, pelo sacrifício e pela busca da justiça. Para muitos países do Sul Global, o Qingming e essas tradições podem oferecer alguma perspectiva. No mundo de hoje, ainda marcado pela desigualdade, muitas sociedades enfrentam pressões externas como o hegemonismo, além de desafios internos como a exploração”.

 

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