Entenda como a Nova Rota da Seda acelera a ascensão chinesa no mundo

Entenda como a Nova Rota da Seda acelera a ascensão chinesa no mundo


Com planejamento estatal e ambição geopolítica, Pequim amplia influência da Ásia à América Latina

Há um termo, na China, corrente na literatura, que se encontra em Lao Zi (571 a.C.-531 a.C.) e em Confúcio (558 a.C.-489 a.C.), que é o “Caminho” (Tao).

Em Din Cheuk Lau (1921-2010), na introdução de Os Analectos (L&PM, 2006), lê-se: “O termo ‘Caminho’ parece cobrir a soma total de verdades sobre o universo e sobre o homem; e não apenas do indivíduo, mas também do Estado, diz-se que possui ou não o Caminho”.

Em Anne Cheng, em História do Pensamento Chinês (1997), encontra-se: Tao “é um termo corrente significando ‘estrada’, ‘via’, ‘caminho’ e, por extensão, ‘método’, ‘maneira de proceder’, que cobre o sentido literal e o sentido figurado”.

A mais antiga figura do pensamento ocidental é o controverso Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), conhecido pelos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Xenofonte (430 a.C.-354 a.C.) e Platão (428 a.C.-347 a.C.).

Embora com características distintas das chinesas, há o nepalês Sidarta Gautama, o Buda (563 a.C.-483 a.C.). Os acontecimentos da vida do “Iluminado”, bem como seus discursos e aconselhamentos, foram preservados depois de sua morte e repassados para outros povos por seus seguidores. Uma variedade de ensinamentos atribuídos a Gautama foi repassada através da tradição oral ou então escrita cerca de 400 anos após sua morte.

O que difere o confucionismo dos demais pensamentos é a origem humana, não divinatória, de algum modo encontrada no próprio hinduísmo, no monoteísmo hebraico e nos pré-socráticos.

De Anne Cheng, no livro citado: “A estatura excepcional (de Confúcio) se deve ao fato de ele ter moldado o homem chinês durante mais de dois milênios, porém, mais ainda, ao fato de ele ter proposto pela primeira vez uma concepção ética do homem em sua integralidade e em sua universalidade”.

Os chineses são quase integralmente da etnia “Han”, correspondendo a 1 bilhão e 294 milhões de pessoas, 91,11% da população da República Popular da China (China).

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De acordo com a atualização demográfica de 2025, as cinco outras maiores etnias são os “Zuang”, concentrados em Guangxi, 19,6 milhões; os “Uigures”, muçulmanos em Xinjiang, 11,7 milhões; os “Hui”, também muçulmanos de Ningxia, 11,4 milhões; os “Miao”, em Guizhou e Hunan, 11 milhões; e os “Manchus”, na região nordeste, 10,4 milhões. Daí em diante, todos têm menos de 10 milhões de pessoas: “Yi”, “Tujia”, tibetanos, mongóis e “Bouyei”, estes últimos com menos de 400 mil pessoas.

Jacques Gernet (1921-2018), professor da Universidade de Paris, em O Mundo Chinês (1972), afirma haver “Han” em Taiwan e no sudeste asiático. Provavelmente, eles seriam descendentes das miscigenações dos “denisovanos” com Homo sapiens e outros descendentes, há muito desaparecidos, do Homo heidelbergensis.

Gernet confronta a história da China com a ocidental na obra citada: “A diferença fundamental que opõe a história da China à dos países do Ocidente, da Antiguidade aos nossos dias, é uma diferença de precisão na análise. Não porque nos faltem documentos: pelo contrário, eles são tão ricos e numerosos que sua exploração foi apenas encetada. Enquanto a história da Itália ou da França, no século XVI, por exemplo, é conhecida ano por ano, e o estudo das transformações históricas que se desenvolveram ao longo deste século está tão desenvolvido quanto é possível, ao contrário da China, que é tão mal conhecida no Ocidente que ainda é possível, muitas vezes, ser referida por três ou quatro séculos como se desse tudo em um ano. A época dos Ming (1368-1644) é evocada como um todo homogêneo, dentro do qual só é possível situar alguns grandes acontecimentos”.

Alguns eventos da Era Ming: a derrota dos mongóis e o estabelecimento da capital em Nanjing; a construção da Cidade Proibida, icônico palácio imperial; as sete viagens de Zheng He, almirante eunuco, que levaram a influência chinesa ao sudeste asiático, à Índia e à costa da África; a construção da Grande Muralha, extensa obra de fortificação, criando a maior parte da muralha que vemos ainda hoje; e a economia Ming, que se tornou uma das maiores do mundo, impulsionada pelo comércio com europeus (portugueses) e pelo influxo de prata, com a China participando com cerca de 25% a 31% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, por volta de 1500-1600.
Da Dinastia Song (960-1279) à Dinastia Qing (1644-1912), a China dominou o mundo pelas invenções, pelo comércio e pela administração de forma consistente durante esta era imperial. O Império do Meio (Zhong Guó) reflete a ideia de centralidade e grandeza da China em relação às outras nações, os bárbaros.

Este sentimento, consolidado pela influência da China na Europa e no Oriente Médio, sofreu o “século da grande humilhação” (1839-1949), correspondendo ao período em que Japão, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e os EUA retalharam o território chinês, exercendo sua colonização e maltratando os naturais do país.

Ficou célebre a placa na porta de um clube inglês, em Pequim — “É proibida a entrada de cachorros e chineses”. Se foi fato ou fake, não sabemos, mas refletia o que os ocidentais faziam com a China depois das Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860).

O período da governança de Mao Tse Tung foi muito conturbado, pelas agressões dos EUA, dos europeus ocidentais e, também, pelas disputas entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a China pela “correta” interpretação do marxismo. A ideia da Revolução Cultural como entrave à ocidentalização capitalista resultou em imensa anarquia institucional e até em fome entre 1966 e 1976.

De Deng Xiao Ping a Xi Jin Ping

Mao Tse Tung morreu em 9 de setembro de 1976. Com ele, o poder assumido pela Camarilha dos Quatro também sofre julgamento e prisão. Eram estes a terceira esposa de Mao, Jiang Qing; o ideólogo e membro do Comitê Permanente do Politburo, Zhang Chun Qiao; o crítico literário cujos textos ajudaram a desencadear a Revolução Cultural, Yao Wen Yuan; e um jovem líder operário, que ascendeu rapidamente na hierarquia do Partido Comunista Chinês (PCCh), Wang Hong Wen.

A China começa a mudar. É o período denominado “Boluan Fanzheng” (“eliminar o caos e retornar ao normal”), do fim dos anos 1970 ao início dos anos 1980, dando suporte à “Reforma e Abertura” de Deng Xiao Ping (1904-1997), a principal liderança entre 1978 e 1990.

Neste período foram aprovadas a Reforma Econômica (1978), a política do filho único (1979), as Zonas Econômicas Especiais (1980) e ocorreu o protesto da Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, a maior praça urbana do mundo (880 por 500 metros), em 1989, que marca o fim da era Deng Xiao Ping.

Deng Xiao Ping foi o chefe do Comitê Central do PCCh e se aposentou em 1992, embora já não exercesse mais o poder que o levou ao governo em 1978.

Entre 24 de novembro de 1988 e 17 de março de 1998, Li Peng foi o primeiro-ministro da China. De 1980 a 1989, o secretário-geral do PCCh foi Zhao Ziyang, que desagradou a cúpula governamental, foi expurgado e preso, morrendo de um derrame, em Pequim, em janeiro de 2005.

Os dirigentes simpáticos ao capitalismo deixam o poder.

Jiang Zemin (1926-2022), 9º secretário-geral do PCCh e 5º presidente do país, promove uma espécie de acomodação entre o pensamento maoísta e os ganhos das medidas capitalistas.

O dirigente seguinte, Hu Jintao (1942), 6º presidente e 10º secretário-geral do PCCh, promove o amálgama do capitalismo com forte presença do Estado, com o comunismo de Mao Tse Tung e com o que de mais arraigado estava no povo chinês: o confucionismo.

Quando se dá a revolução maoísta, em 1950, a China tinha 552 milhões de pessoas, das quais 88,8% habitavam áreas rurais. A evolução demográfica assim se comportou nos anos seguintes: em 1978, 82% rural e 18% urbana; em 2000, 64% rural e 36% urbana; e, em 2011, se dá o ponto de virada, 51% urbana e 49% rural. Mas o confucionismo já se reintegrara ao novo pensamento chinês. E influenciará a governança de Xi Jin Ping.

Em discurso de 15 de novembro de 2012, por ocasião do 18º Congresso do PCCh, Xi Jin Ping assim se manifestou, demonstrando uma ideologia antes de tudo nacionalista, que viria a ser denominada “socialista com características chinesas”. Segue pequeno trecho:

“Nosso povo ama a vida e deseja ter melhor educação, trabalhos mais estáveis, rendas satisfatórias, melhor seguridade social, melhores serviços médicos e de saúde, condições habitacionais mais cômodas e um ambiente mais bonito. Nosso povo espera ainda que seus filhos possam crescer, trabalhar e viver melhor. A aspiração do povo por uma vida feliz é o objetivo da nossa luta.”

A lua vem da Ásia (1956)

O título deste romance, do autor surrealista paulista e procurador do Estado Walter Campos de Carvalho (1916-1998), surge como verdadeira manchete assombrando o Ocidente do século 21.

No entanto, para os mais antigos, que ainda vivem e guardam recordações dos circos chineses percorrendo a Europa durante o período da “Grande Humilhação”, há alguma sensação de surpresa e de humor. Campos de Carvalho, em O Pasquim (maio de 1974): “Nasci clown e morrerei clown, embora a vida toda tenha sido um mero funcionário público”. É o circo, com surpresas, sustos e mágicas, que a China, líder em tecnologia, ciência, comércio, riquezas e forças armadas, trava contra a ambição bélica, colonial e financeira europeia e dos EUA.

Os exemplos com os quais encerramos este artigo vêm das apreciações sobre a cidade de Shenzhen, o primeiro pelo diretor responsável do jornal Monitor Mercantil, Marcos de Oliveira, em 10 de abril de 2026, e o segundo pela equipe de redação de The Nordic Times, em 8 de maio de 2026, em tradução livre.

Marcos de Oliveira: “Qual a cidade mais populosa da China?”

“Se o caro leitor respondeu Xangai ou Beijing, não estará sozinho; muitos chineses responderiam o mesmo. Mas a cidade mais populosa da China é Chongqing, com cerca de 33 milhões de habitantes em sua área administrativa total. Jacarta, na Indonésia, com quase 42 milhões, é tida (por algumas fontes, os critérios variam) como a mais populosa do mundo.”

“Situada no sudoeste da China, Chongqing sofre uma espécie de bullying. Muitos chineses dirão que a cidade deve ter entre três milhões e cinco milhões de habitantes e faz parte da província de Sichuan. Na realidade, além de ter 10 vezes mais moradores, Chongqing é uma das quatro cidades administradas diretamente pelo governo central (as outras são Beijing, Xangai e Tianjin).”

“Chongqing nasceu no local em que as águas esverdeadas do rio Jialing se juntam às águas de coloração amarela do Yangtzé, o maior rio da Ásia. A pouco menos de 600 quilômetros de distância fica a barragem de Três Gargantas, considerada a maior hidrelétrica do mundo.”

“A cidade-estado foi capital provisória da China durante a Segunda Guerra. Situada em uma região de montanhas, tem características urbanas próprias, marcadas por viadutos, pontes e túneis, que muitos descrevem como um labirinto tridimensional (até o GPS se perde diante das múltiplas camadas). Uma das fotos mais conhecidas é a do monotrilho que passa por dentro de um edifício (comercial nos primeiros andares, residencial acima), com a estação no 6º andar.”

“A cidade está em constante crescimento, com prédios — muito altos e parecidos uns com os outros — em construção, obras que vão de domingo a domingo. Todos esses fatores, que fazem muitos compararem Chongqing a Xangai e Hong Kong, fazem da cidade uma aposta certa na atração de visitantes, que só cresce à medida que fica mais conhecida nas redes sociais.”

The Nordic Times: visita à cidade do futuro

“A transformação de Shenzhen é uma das histórias mais notáveis da história moderna. Em 1980, este era um conjunto de aldeias de pescadores com um núcleo urbano de apenas 30 mil habitantes na fronteira com a britânica Hong Kong. Deng Xiaoping designou a área como a primeira zona econômica especial da China, um experimento em economia de mercado dentro do sistema comunista. O experimento teve sucesso além de todas as expectativas. Hoje, Shenzhen tem entre 13 milhões e 18 milhões de habitantes, dependendo de como é contado. O PIB da cidade explodiu de 270 milhões de yuans em 1980 para 3,68 trilhões de yuans em 2024, crescimento sem paralelo na história mundial. Nenhuma cidade da história cresceu mais rápido. Shenzhen deixou de ser mais pobre do que seus vizinhos para superar Hong Kong em tamanho econômico em 2018.”

“A cidade é muitas vezes chamada de ‘Vale do Silício da China’ ou a ‘capital mundial de hardware’. Gigantes da tecnologia como Huawei, Tencent, DJI e BYD têm sua sede aqui. De acordo com estimativas da indústria, uma parcela esmagadora dos componentes eletrônicos do mundo é fabricada na região de Shenzhen. O telefone em que você está lendo isso, o computador em que você trabalha: as chances são grandes de que os componentes tenham sido feitos aqui.”

“De 14 a 16 de novembro de 2025, a 27ª edição da China Hi-Tech Fair (CHTF) foi realizada no Shenzhen World Exhibition & Convention Center. É a maior e mais influente feira de tecnologia da China, e os números são impressionantes: 400 mil metros quadrados de espaço de exposição, mais de 5 mil expositores de mais de 100 países e até 400 mil visitantes profissionais ao longo dos três dias. Cada salão exigiria um dia inteiro para realmente explorar. Os expositores mostram tudo, desde eletrônicos de consumo até robôs industriais, de chips avançados a táxis voadores. O que me impressiona é a amplitude. A China não é mais apenas ‘a fábrica mundial’ de produtos ocidentais fabricados sob contrato. As inovações domésticas e as marcas domésticas estão sendo demonstradas aqui em uma escala da qual o mundo ocidental mal parece consciente.”

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