
Em Pequim, líderes e especialistas destacam papel chinês na governança global, na segurança internacional e na articulação do Sul Global
247 – Em meio à aceleração das mudanças no cenário internacional e ao aumento das incertezas geopolíticas, o 14º Fórum Mundial da Paz, realizado nesta sexta-feira (3) em Pequim, consolidou-se como um espaço relevante para observar os novos rumos da governança global.
Segundo o jornal chinês Global Times, acadêmicos estrangeiros, ex-líderes políticos e especialistas chineses presentes ao evento avaliaram que o mundo passa por profundas transformações estruturais, nas quais temas tradicionais de segurança e desenvolvimento estão cada vez mais interligados, enquanto a ordem internacional atravessa um momento decisivo de reequilíbrio.
Nesse contexto, as propostas da China para a governança global e a segurança internacional foram apontadas pelos participantes como fatores de estabilidade e previsibilidade em um ambiente marcado por turbulências. A ênfase chinesa no diálogo, na consulta, na segurança comum e na cooperação de ganhos mútuos vem recebendo reconhecimento internacional mais amplo e sendo vista como uma contribuição construtiva para a paz e o desenvolvimento global.
O fórum, com duração de três dias, aborda uma ampla agenda de temas geopolíticos, incluindo as relações entre grandes potências, a situação no Oriente Médio, a cooperação regional e as mudanças na ordem mundial.
Ao discursar na cerimônia de abertura, o vice-presidente da China, Han Zheng, afirmou que Pequim aproveitará a Conferência Mundial de Inteligência Artificial e a Reunião de Alto Nível sobre Governança Global da IA como oportunidades para fortalecer intercâmbios e cooperação com todas as partes, com o objetivo de construir um sistema global de governança da inteligência artificial baseado em amplo consenso, informou a agência Xinhua.
Han destacou que o mundo vive uma transformação acelerada, sem precedentes em um século, marcada por instabilidade crescente, turbulências, conflitos geopolíticos frequentes e déficits cada vez mais evidentes de governança. Ele também afirmou que a China está disposta a trabalhar com todos os países para preservar a ordem internacional do pós-guerra e defender a justiça e a equidade internacionais.
Um dos destaques do fórum foi a análise sobre a ascensão de novos centros de poder e a necessidade de fortalecer o multilateralismo. Mushahid Hussain Sayed, ex-presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado do Paquistão, afirmou que o mundo vive um momento histórico de transformação, transição e turbulência.
“Em um momento tão importante da história, quando estamos testemunhando transformação, transição e turbulência, novos centros de poder estão se deslocando, e estamos vendo mudanças na ordem internacional”, disse Sayed.
O ex-dirigente paquistanês também afirmou que o Paquistão, ao lado de países como a China, desempenhou “um papel crucial e proativo” na obtenção do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos. Para ele, esse processo abriu “um novo capítulo” na política internacional.
Sayed destacou ainda que a direção em que o mundo avança foi expressa de forma clara pela proposta chinesa da Iniciativa de Governança Global, centrada na igualdade soberana, no multilateralismo e no desenvolvimento voltado às pessoas.
A crise envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã também esteve entre os principais temas debatidos. Considerado um dos focos geopolíticos de maior atenção internacional nos últimos meses, o conflito foi analisado por participantes do fórum como parte de um quadro mais amplo de instabilidade global.
Antes do início do encontro, Yan Xuetong, decano honorário do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Tsinghua, ampliou a análise sobre as implicações de segurança do conflito com o Irã e discutiu como a ordem internacional poderá evoluir ao longo do próximo ano, segundo relatos da imprensa chinesa.
Yan observou que tanto a Europa quanto o Oriente Médio estão hoje no centro de conflitos armados. Para ele, a Europa, por muito tempo vista como o centro tradicional do mundo, enfrenta dificuldades crescentes para preservar a paz e a estabilidade, ao mesmo tempo em que sua economia permanece estagnada.
Em contraste, Yan afirmou que o Leste Asiático vem demonstrando forte potencial de desenvolvimento. A região, segundo ele, tem conseguido manter estabilidade geral e paz, ao mesmo tempo em que registra crescimento econômico sustentado. Esse desempenho tem atraído atenção crescente de países e especialistas de fora da região.
“A China tem a segunda maior economia do mundo e é uma grande potência. Como país líder do Sul Global, ela pode definitivamente desempenhar um papel muito importante na preservação da ordem mundial estabelecida e no enfrentamento de qualquer tipo de ação unilateral por parte de qualquer Estado”, afirmou Gholipour.
Ele acrescentou que Pequim pode contribuir para fortalecer os países em desenvolvimento diante de pressões externas.
“A China poderia ajudar especialmente o Sul Global a se tornar poderoso o suficiente para ter uma frente unida contra qualquer tipo de ação unilateral por parte dessas potências”, disse.
O 14º Fórum Mundial da Paz, portanto, reforçou a percepção de que a China busca ampliar sua influência diplomática por meio de propostas centradas no multilateralismo, na soberania, na cooperação internacional e na rejeição ao unilateralismo. Em um cenário de conflitos simultâneos e reconfiguração da ordem global, a atuação chinesa foi apresentada por participantes como um fator de equilíbrio e uma alternativa para países do Sul Global.
