Especialistas da ONU cobram Meta por restrições que prejudicaram campanha de Lula nas eleições

Especialistas da ONU cobram Meta por restrições que prejudicaram campanha de Lula nas eleições

Sem citar nomes, comunicado descreve episódios denunciados pelo PT e pede reparação ainda durante o período eleitoral

BDF – Um grupo de especialistas independentes da Organização das Nações Unidas (ONU) cobrou, nesta quarta-feira (21), que a Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, avalie se seus sistemas de moderação, recomendação e inteligência artificial restringiram de forma desproporcional um dos lados do debate eleitoral brasileiro.

Segundo o comunicado, os relatos de restrições à expressão política legítima nas plataformas da empresa durante as eleições geram preocupação com a liberdade de expressão e de associação, a participação política e a igualdade de tratamento entre posições políticas.

“Relatórios de monitoramento mostram que milhares de contas e publicações enfrentaram suspensões, redução de visibilidade e limitações de compartilhamento, incluindo jornalistas, defensores de direitos humanos, atores da sociedade civil e criadores de conteúdo”, afirmaram os especialistas.

“Informações, inclusive de funcionários da Meta, sugerem que contas vinculadas a um dos lados da disputa presidencial foram afetadas de forma desproporcional“, pontua o documento.

Assinam o texto o relator especial sobre a liberdade de opinião e de expressão, Leopoldo Maldonado Gutiérrez; a relatora especial sobre a independência de juízes e advogados, Margaret Satterthwaite; a relatora especial sobre os direitos à liberdade de reunião pacífica e de associação, Gina Romero; a relatora especial sobre a situação dos defensores de direitos humanos, Andrea Bolaños Vargas; e os integrantes do Grupo de Trabalho sobre Empresas e Direitos Humanos. Os especialistas são nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, mas atuam de forma independente e não falam em nome da organização.

O comunicado, que não cita nomes de candidatos, aponta que observadores internacionais das eleições relataram interrupções temporárias na conta de campanha de um dos candidatos, diferenças de engajamento, alcance, contagem de visualizações e presença nos feeds, restrições a publicações dessa campanha no Instagram e diferenças entre os principais partidos na geração de imagens por IA, nos resultados de busca de canais do WhatsApp, nos stories dos candidatos e na distribuição de conteúdo político, com potencial benefício à campanha adversária.

“Perder alcance pode significar perder voz no debate público e a capacidade de mobilizar comunidades. Algoritmos, sistemas de IA e decisões de moderação de conteúdo não devem se tornar árbitros invisíveis da discussão política. Quando a expressão política parecer estar sendo restringida de maneira desproporcional, as plataformas devem explicar o motivo, corrigir impactos desiguais e garantir recursos efetivos”, diz o texto.

Os especialistas pedem que a Meta forneça explicações e mecanismos de reparação, aplique as regras de forma consistente e sem discriminação, mantenha diálogo transparente com a sociedade civil e garanta que reclamações sejam analisadas ainda durante o período eleitoral. “Durante as eleições, recursos tardios podem ter consequências irreversíveis”, alertam.

O comunicado também lembra que um ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que a Meta aplique as mesmas regras aos dois candidatos até o segundo turno, proibindo restrições desiguais de alcance, recomendações e resultados de busca. Os relatores defendem o papel de um Judiciário independente e imparcial e afirmam que qualquer restrição à expressão política, inclusive em plataformas privadas, deve estar sujeita ao devido processo legal.

Entenda

As denúncias contra a Meta se acumulam desde o início do segundo turno. A coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acionou o TSE contra a empresa e criou o canal Censura Digital para reunir relatos de restrição de conteúdo. Na mesma semana, veio à tona que a inteligência artificial da Meta não gerava imagens com a expressão “Lula 13”, mas criava peças com “Flávio 22”, em referência ao candidato Flávio Bolsonaro (PL).

“É muito grave que uma ferramenta bloqueie material de um candidato e permita material equivalente do adversário em plena disputa acirrada de segundo turno presidencial. A Meta precisa responder por essa diferença de tratamentos e, sobretudo, não simplificar chamando apenas de uma questão de falha técnica”, afirmou o professor do Insper e diretor da ONG Coletivo Digital, Rodolfo Avelino, em entrevista ao programa É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato.

Mensagens internas da empresa, reveladas na semana passada, reconhecem prejuízo à campanha de Lula e uma sugestão irregular do perfil de Flávio Bolsonaro nas buscas. O Ministério Público Federal (MPF) também acionou a Meta na Justiça pelo bloqueio de perfis de entidades estudantis no Instagram no Rio Grande do Sul. Na segunda-feira (19), o TSE deu 24 horas para a Meta comprovar igualdade de tratamento entre as campanhas.

No mesmo dia, cerca de 500 pessoas, segundo os organizadores, protestaram em frente à sede da Meta no Itaim Bibi, na zona sul de São Paulo (SP). “Não podemos dizer que temos eleições justas a partir do momento em que temos uma empresa utilizando o seu poder econômico, técnico e tecnológico para pender para um dos lados do debate público”, disse Dani Silva, diretora-executiva da Ctrl+Z, uma das entidades à frente do ato.

Para o sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC, as falhas têm direção definida. “A Meta reconheceu que houve problemas técnicos, mas esses problemas prejudicam apenas um lado, o do presidente Lula”, afirmou durante a manifestação.

A empresa nega favorecimento. “A Meta não toma partido nessa nem em nenhuma outra eleição e são falsas e infundadas as alegações de que estamos favorecendo ou interferindo em nome de qualquer candidato ou grupo político. Nossos sistemas não classificam nem distribuem conteúdo com base em ideologia política, e nossas regras e sua aplicação valem igualmente para todos”, declarou em nota.

O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro será no próximo domingo (25).

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