É também uma excelente notícia para a Organização das Nações Unidas, tão desprezada pela política externa de Trump. Abre-se uma oportunidade para que a ONU recupere o protagonismo e avance nas reformas necessárias para exercer um papel efetivamente preponderante na construção de uma nova ordem internacional, mais democrática, multipolar e comprometida com a paz, a soberania dos povos e a cooperação entre as nações.
Há, porém, um fenômeno ainda mais significativo em curso: uma onda de mobilização popular que cresce no Brasil, nos Estados Unidos e em diferentes países europeus, reunindo jovens, trabalhadores e amplos setores da sociedade. As manifestações de rua vêm atropelando o ritmo e, muitas vezes, a própria capacidade de resposta dos partidos e das lideranças políticas tradicionais. O avanço de governos e projetos autocráticos, as ameaças às liberdades democráticas e os ataques aos direitos sociais estão levando multidões às ruas, em diferentes partes do planeta.
É uma reação que ultrapassa fronteiras e ideologias partidárias e recoloca a participação popular no centro da disputa pelo futuro das democracias.
Na América Latina, a esperança é que essa onda de resistência democrática também interrompa o avanço dos governos alinhados incondicionalmente a Trump. A sucessão de vitórias eleitorais da extrema direita na região foi acompanhada por uma operação de influência política de Washington, conduzida por Marco Rubio, com apoio financeiro, diplomático e eleitoral a candidatos conservadores. A estratégia chegou ao emprego direto da força militar no Caribe, culminando na operação contra a Venezuela. É a reedição, sob novas formas, de uma política histórica de intervenção dos Estados Unidos na América Latina. Uma política que agora enfrenta sinais de resistência e pode começar a perder força diante das mudanças expressas nas urnas e nas ruas.
Mais do que uma reação ao avanço da extrema direita, o que começa a ganhar forma nas urnas e nas ruas é uma disputa pelo futuro da humanidade. E esse futuro não pode pertencer aos autocratas, aos senhores da guerra e aos donos do dinheiro. Tem de pertencer aos povos.