
Tenho pouquíssimo interesse pessoal no Brasil.
Não gosto do Brasil; é mais honesto dizer.
Por Luiz Antônio Simas
Professor de História e escritor
Eu gosto é da brasilidade, essa comunidade de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras, contradições, naufrágios, ilhas fugidias. identidades inviáveis, subversões cotidianas, voo de arara e picada de maribondo, saravá e samba.
Coisas que o Brasil, o estado colonial brasileiro delimitado em marcos territoriais, a burocracia, a República, como a Monarquia, odeiam. Essa arte de viver na síncopa, no drible, na dobra do tambor, na oração dos romeiros, na dança lenta de Oxalufã, nas delicadezas do Reisado, nas rodas de cirandas, nas oferendas do Divino, na suavidade dos sons bonitos, no esporro dos tambores das matas e cidades e na imponência calada das imensas gameleiras.
O Brasil tem verdadeiro horror da brasilidade, essa bruma incerta que une os marujos da nau sem rumo, a filha das putas, dos fodidos, dos lanhados, dos exterminados, dos encantados, contra o vento, contra o rei, contra a lei, contra o altíssimo, contra a foice, o facão, o canhão e o arado.
Eu já deixei o Brasil – um empreendimento horroroso de morte e desencanto – faz tempo e fui morar, arriar padê e cuspir marafo na encruzilhada da brasilidade, a sua maior inimiga.
