E se o jornalismo fosse inventado hoje?

E se o jornalismo fosse inventado hoje?

A trilha sonora da caminhada diária é ao som de um dos vários podcasts de notícias. A voz humana provoca um efeito de proximidade e confiança. O celular é um dispositivo sempre presente, responsivo ao comando por voz e pela face. Aplicativos de saúde monitoram os batimentos cardíacos do trajeto, mandam alertas quando é hora de beber água, contam os passos, calculam a distância. Além disso, não deixam esquecer as tarefas diárias, monitoram a qualidade do sono, guiam viajantes e ligam as pessoas em qualquer parte do planeta por mensagens em texto, áudio e vídeo. E ainda, enviam notificações de exposição ao coronavírus. Quanto da sua vida é afetada pela tecnologia da informação?

As tecnologias da internet vêm provocando turbulências contínuas sobre a Democracia, Educação, Saúde, Jornalismo, enfim sobre a vida em sociedade. São áreas em que a prática jornalística se dedica à apuração e produção de conteúdo, justamente porque são de extrema relevância para os distintos públicos. A expansão dos dados e conteúdos gerados para estes nichos é infinitamente volumosa, mas são campos impactados pela desinformação sob demanda, que ganha espaço principalmente em aplicativos e plataformas sociais.

Porém, são espaços ocupados por pessoas que, além do relacionamento e entretenimento, encontram formas de autoexpressão, buscam conexão, visibilidade, credibilidade, poder, informação e outros mais. Tais espaços, são meios para a produção e distribuição de informações jornalísticas. Felizmente, pesquisadores vêm se dedicando a estudar os impactos negativos da tecnologia nessa área.

Apesar de pontos de vistas divergentes, não há como ignorar — existe jornalismo nos aplicativos e nas plataformas, as organizações de notícias ensaiam novas maneiras de perseguir sua finalidade pública de levar informação precisa e relevante para a sociedade, estão contratando jovens jornalistas para trabalhar nas contas do Tik Tok e Instagram, também exploram o envio de notícias pelo WhatsApp. Apesar de todo o avanço tecnológico, a necessidade social da informação que está na origem do jornalismo se mantém altamente relevante.

Mídia tradicional nas redes

Há três anos o jornal Folha de S.Paulo decidiu encerrar suas atividades no Facebook, à época, a justificativa foi a diminuição da visibilidade do jornalismo profissional pela rede social. Porém, meses depois, a Folha voltou a publicar naquela plataforma. Apesar disso, o jornal produz e distribui notícias no impresso, digital (site), Twitter, Instagram, LinkedIn, WhatsApp, aplicativo do veículo e no Tik Tok. O Estadão também faz jornalismo no Tik Tok, no Instagram usa com propriedade o recurso Stories, em questão de minutos é possível receber, entre outras informações, a jornalística. De saúde à política, educação e economia, qualquer pessoa cadastrada na rede pode acessar as notícias. O jornalismo é introduzido na vida das pessoas com criatividade, narrativas curtas e precisas, que exploram a figura humana do jornalista para fazer um contato de proximidade com o público.

Produzir notícias para mídias digitais abre oportunidades para os jovens ingressantes na profissão, uma nova geração de jornalistas acostumados a lidar com a tecnologia e dispositivos como smartphones, daí à produção de notícias nas redes sociais e plataformas de mensagens privadas é uma questão de adaptação das redações. Existem alguns veículos que ainda são limitados na forma de explorar tais recursos, alguns replicam o texto do site de notícias em todas as redes sociais, apesar de colocar animações, ainda se limitam ao texto. São poucos que dominam a tecnologia para criar formas criativas de entregar notícias, para muitos publishers, as redes sociais são pedras nos sapatos. E com razão. No último comentário da semana para o objETHOS, Samuel Lima faz um alerta importante sobre as ilusórias promessas da tecnologia para a interação social, segundo ele, as plataformas são domínios transformados em “bolhas ditadas por esotéricos algoritmos”.

Pensar nas necessidades e nos valores das pessoas, levar informações precisas, verificadas com rigor e de interesse público — são finalidades do jornalismo. No entanto, cumprir tais propósitos têm sido cada vez mais desafiante, em parte, devido às tecnologias da internet e sua influência direta nas práticas jornalísticas: processos, coleta, distribuição de notícias e a árdua busca para mostrar às pessoas a diferença entre fato e ficção. Nesse sentido, é possível perceber os movimentos de algumas organizações de notícias para adequar suas rotinas produtivas à realidade digital.

Ensino do Jornalismo e tecnologias

Nicholas Diakopoulos diz que os obstáculos ao progresso e inovação nas organizações de notícias provavelmente são culturais, em parte porque o jornalismo não veio de uma cultura de design centrada nos valores das pessoas. Segundo ele, o jornalismo é muito parecido com a Ciência da Computação, porque os dois se preocupam com a informação. Mas essa dupla deve estar alinhada e compor equipes de jornalismo nas organizações de notícias, sobretudo porque o jornalismo precisa de jornalistas desenvolvedores de softwares, programadores, especialistas em análise de dados, entre outras habilidades.

Mariane Nava faz algumas indagações sobre o jornalismo tradicional e a não tão nova realidade tecnológica que molda as práticas jornalísticas. É uma área de densas discussões, e são inadiáveis. Historicamente, a indústria jornalística sempre foi muito isolada, precisa desenvolver um senso de comunidade e apoio entre si e entre outras práticas profissionais. Em sua tese de doutorado, Lívia Vieira fala sobre as audiências ativas e argumenta que os jornalistas ainda reivindicam para si a legitimidade única de dizer o que é notícia e ignoram o saber da audiência. Algumas amarras impedem novos olhares para o jornalismo, aquele que toca as pessoas em suas necessidades, a oferta de notícias e reportagens ainda é muito centrada no que os jornalistas e organizações acham que as pessoas precisam.

Sobre o Tik Tok e outras plataformas digitais, Ricardo Torres considera cedo estabelecer definições sobre tais relações, discorre sobre as vulnerabilidades e as possíveis consequências da aproximação do jornalismo com as plataformas terceirizadas. No entanto, o relacionamento está acontecendo. Raquel Longhi também olha para aspectos da plataformização do jornalismo e mostra que veículos brasileiros estão se voltando para estes espaços: Snapchat, Facebook, Instagram e YouTube. O Brasil está entre os maiores públicos usuários do Tik Tok. Além de Estadão e Folha de S.Paulo, o Jornal Meia HoraJornal da RecordAgência LupaDiário do Rio e o Poder 360 são alguns dos veículos que já possuem seus perfis no aplicativo e estão usando a plataforma para fazer jornalismo.

Outro fator a ser considerado refere-se à sofisticação computacional muito desigual nas redações. Enquanto alguns veículos têm equipes multifuncionais bem estruturadas, compostas por jornalistas e especialistas em tecnologia, outras ainda encontram dificuldade em analisar planilhas de dados ou se posicionar assertivamente em redes como, por exemplo, produzir e distribuir notícias para formatos específicos, como o Tik Tok.

As plataformas sociais são cada vez mais criticadas por seus algoritmos opacos e insuficiência de esforços para combater a desinformação online. A exemplo do Facebook, críticos alertam que se não houver uma regulamentação esta rede social é uma ameaça à democracia e aos cidadãos. O Integrante do Conselho de Supervisão independente do Facebook, Alan Rusbridger explica que excluir conteúdo e até mesmo pessoas das plataformas sociais até pode diminuir a desinformação, mas não resolve o problema. Esse tipo de ação pode levar à clandestinidade e no mundo digital significa canais de mensagens criptografados e privados, difíceis de monitorar. Ele afirma que a maneira de combater a má informação é criar boas informações.

Certamente, não é minha pretensão fazer afirmações sobre como deve ser o jornalismo e sua prática profissional, hoje. Não há uma única solução para resolver todos os problemas que o jornalismo enfrenta no meio digital. Explorar caminhos novos e soluções olhando para o que está dando certo em outros contextos é minha função como pesquisadora. O ceticismo com certeza deve estar presente, mas precisamos de olhares livres de preconceitos para as inovações.

É uma época difícil para jovens jornalistas ingressarem na carreira profissional. Uma coisa que me parece significativa e otimista foi encontrar a disseminação de conteúdo útil e verificado no Instagram e Tik Tok de alguns veículos noticiosos brasileiros. Além disso, ver jornalistas em início de carreira dominando estes espaços sinaliza uma luz no fim do túnel, oportunidade de remuneração, sobretudo de circulação de boa informação nestes meios.

Mas é preciso levantar a questão: e se o jornalismo fosse inventado hoje, as escolas de jornalismo estariam preparadas e conscientes para tornar a inovação no jornalismo mais letrada do ponto de vista tecnológico? Nossa área está preparada para dialogar com cientistas da computação, designers e desenvolvedores de softwares? Qual a interface entre a teoria do jornalismo e o ecossistema digital baseado nas plataformas globalizadas?

Assim, há muitas oportunidades no uso da tecnologia para o jornalismo melhorar seus processos, disseminar informações verdadeiras e alcançar mais pessoas. Para isso, um bom começo seria desenvolver um senso de comunidade e colaboração entre jornalistas, academia e outras áreas de conhecimento.

Texto publicado originalmente por objETHOS.

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Denise Becker é mestranda do PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS.

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